AU – O Código de Caminha (2010)

Aprendemos ou ouvimos falar, nas aulas de História, que Pero Vaz de Caminha escreveu uma carta ao rei de Portugal D. Manuel, mais de 500 anos atrás, comunicando um fato extraordinário. Ainda mais fantástico é o fato de que raramente nos conscientizamos de que o Brasil, pelo ato de Pero Vaz de Caminha, tem uma certidão de nascimento, assinada, datada, localizada e reconhecida. Este ato prodigioso corresponde a uma espécie de big bang da cultura brasileira, e os fragmentos da escritura de Caminha estão inscritos em praticamente todos os corpos, textos, sons, imagens, relações e eventos que aqui estão e surgem —embora nem sempre isto esteja claro, do mesmo modo que raramente visualizamos uma pessoa como um mapa genético. O que torna estrondosamente incrível o fato de que, hoje, em todo o mundo, os testes genealógicos de DNA sejam, realmente, documentos comprobatórios que garantem direitos.

O código de Caminha se manifesta de formas muito variadas, mas uma delas é particularmente marcante: aforma oficial. Esta forma busca repetir o ato primordial de Caminha, ou seja, escrever uma carta ao rei. Um ato simples, prosaico, ridículo até, mas que tem uma extensão assombrosa. Não há exagero em afirmar queperde-se o sentido de viver na cultura brasileira se não se escreve uma carta ao rei. Dar sentido à vida é dar forma oficial aos nossos corpos, textos, sons, imagens, relações e eventos —ou seja, dar-lhes uma certidão de nascimento assinada, datada, localizada e reconhecida. “Coisas” sem forma oficial são “coisas” sem sentido e, aqui, fontes de sofrimento.

Os versos “I’m very superficial / I hate anything official” (“Sou muito superficial / Odeio tudo que é oficial”) da canção “Private Life”, de Chrissie Hynde, configuram um exemplo de atitude muito impopular no Brasil, um jeito de ser que não lança raízes. Estes versos, também cantados por Grace Jones, desprezam o ato de escrever ao rei e afirmam o prazer de viver sem o reconhecimento oficial. A cultura brasileira não vê qualquer virtude em uma vida fora dos cartórios. A cultura brasileira busca a extrema profundidade.

Akira Umeda, 2010

Escrito por Akira Umeda

maio 24, 2013 em 12:46 am

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