A arquitetura e o mata borrão em Porto Alegre

A arquitetura de Porto Alegre tem, como uma de suas características mais marcantes uma solidez que se traduz por edifícios, e residências que seguem um padrão que vou chamar de box. Não que isso seja particularmente feio, mas é, no mínimo desinteressante, porque implícito há uma linearidade que nem sempre creio interessante. É claro que a arquitetura box tem seus encantos como, por exemplo, os edifícios da Praça da Alfândega, que são belíssimos não apenas no sentido histórico, mas que lembram outras cidades, muito mais cosmopolitas que a capital dos gaúchos.

A arquitetura, entendo, não é algo que tenha somente com prédios suntuosos, com suas próprias linhas mais ou menos arrojadas: arquitetura, no meu parco entendimento, condiz com dois fatores que pretendo fundamentais: õcupação de espaços, sejam públicos ou privados e, não menos importante, como esses espaços interferem, se manifestam nas histórias das vidas das pessoas que os frequentam ou não mas que, de alguma forma, foram tocadas sensivelmente por esses espaços. Assim é, para mim o mata-borrão.

O prédio, construído em 1958, era um “olho” que, situado no centro de Porto Alegre, na esquina da avenida Borges de Medeiros com a rua Andrade Neves, era algo absolutamente exótico em meio aos boxes que ali se erguiam de modo um tanto quanto pachorrento. O mata-borrão, ao contrário, era contestadoramente posto em meio à rotina. O prédio tinha como destino abrigar exposições e mostras não apenas culturais, voltadas para a arte,  mas para o que de interessante houvesse. E cumpriu a sua missão que, contudo, não teve um espaço de tempo maior, visto que foi demolido nos finais dos anos sessenta para que ali se erguesse mais uma caixa arquitetônica, mais especificamente a sede da Caixa Econômica Estadual.

Atualmente quem passa pela esquina vai encontrar um prédio de serviços do Estado do Rio Grande do Sul, o “Tudo Fácil”. Com ironia, penso que fácil é não preservarmos o que existe, e, realisticamente, me vem a ideia de que novas gerações jamais terão noção de que ali, na esquina do “Tudo Fácil” houve, cinquenta anos atrás, um prédio revolucionário, que nada tinha com o monocórdio das linhas retas.

Melhor ainda para quem, como eu, visitou várias vezes o mata-borrão, um prédio delicioso, ainda de madeira, totalmente iluminado, e na companhia dos meus pais. Não perdíamos uma oportunidade de passear por um centro em que famílias podiam ir ao cinema, andar pela Rua dos Andradas, comer um pernil no Matheus e depois retornar, em paz, para suas casas. Então, não se trata somente do prédio em si, mas, para além da arquitetura, do que ele, assim como para centenas que viveram tal experiencia, representou.

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