Beleza humana: fruir ou consumir?

Sandy Leah, cantora brasileira.

Beleza humana: fruir ou consumir?

A beleza física é altamente valorizada em uma sociedade que tende ao hedonismo e afeita ao consumo rápido e fugaz. A reverência ao belo, em si, isoladamente, não é uma característica exclusiva do tempo em que vivemos. Os romanos, os gregos e outras civilizações já culturavam a bveleza como um prazer estético de primeira categoria. Isso ocorre não apenas quando vemos um modelo publicitário, a estátua de David ou a Capela Cistina, ou ainda a bela mulher (ou homem) com quemn conversamos, mas, por igual, quando apreciamos obras de design, de arquitetura, e a natureza com suas multiplicidades e miríades de formas. Apreciar a beleza é algo profundamente humano, no sentido de sua fruição e senso de estética que todos possuímos, embora saibamos que a apreciação do belo atende igualmente a determinações sociais.

Um exemplo disso tive há mais de quinze anos atrás. Por volta das seis da manhã estava no ônibus que me levaria para a escola que trabalhava. Essa hora tradicionalmente os coletivos são ocupados por pessoas que tem atividades informais, operários, empregadas domésticas, enfim, por aquele povo que está alijado do mundo dos cartões de crédito e do consumo. Notei que uma mulher chamava a atenção de muitos homens, mas não conseguia vê-la. Algumas paradas depois descemos juntos. Não se tratava de uma questão de a mulher ser ou não elegante, mas do seu corpo, que foi atraente à maior parte dos homens operários, mas que não me chamou a mínima atenção. A minha curiosidade foi tentar entender o porquê daquele sex appeal.

Foi então, refletindo, que entendi que a beleza não é apenas uma questão de foro íntimo, mas uma questão social. Há uma influência e uma descoberta social da beleza e ambas são orientadas através das histórias e dos registros identitários das mesmas classes sociais. Nesse sentido a beleza não é universal; perde ou ganha muitos pontos dependendo do meio social do observador e do observado.

A questão é no que a beleza (ou a sua falta) implica em relação às pessoas imersas em um sistema sócio-cultural regulado por altos interesses econômicos e pela extratificação do acesso aos bens de consumo, dos quais ela mesma é um dos itens mais relevantes. Do ponto-de-vista do marketing e do interesse midiático, as pessoas devem perseguir o belo como um valor em si, como se pudéssemos depurar um ser-belo como um dever, um vir-a-ser, um valor depurado das demais contingências de vida e da vida.

No filme Beleza Americana um homem maduro descobre que o belo não está apenas na ninfeta que o cerca e estimula. Em uma das cenas principais, ele renuncia a entrega sexual para simplesmente contemplar a beleza. Pode-se argumentar que há um sentimento de culpa  absolutamente localizado,  mas ali,  na situação proposta, ele pouco importa. Ao homem não interessa consumir a beleza, mas simplesmente fruí-la. Por isso ele não é um predador sexual, mas um connoiceur.  Há uma lição nisso tudo, que implica em um não esgotamento do belo, mas em sua manutenção. O prazer reside justamente na fruição, e não em predar algo tão efêmero mas altamente significante.

Uma das considerações a respeito da beleza é justamente essa: ela não existe para ser destruída, mas fruída, desfrutada, considerada enquanto manifestação humana de um valor, e por isso advém a sua valorização, tão considerada pelo mercado. A indústria do desejo sabe o que a imagem do belo pode construir em termos de associação identitária e de deslocamento psicológico como uma defesa à frustração.

A ocupação e a pré-ocupação com a beleza rendem bilhões de dólares ou de euros às corporações que trabalham com cosmética, com a indústria da cirurgia plástica estética, com as academias de ginástica, com as centenas de projetos de estímulo à beleza veiculados pela mídia mundial em escala interplanetária. Em meio a uma cotidianeidade imagética é interessante que, ao estímulo e consumo individual de marcas famosas (dizer griffe fica menos demodèe) se acrescente a estética física devidamente padronizada de acordo com interesses que são óbvios – como o financeiro – até alguns mais sutis mas não menos poderosos – como a constituição identitária e o sentido de agregação social a determinados grupos de poder.

A leitura social da beleza implica bem mais do que a aparência estimulada e retocada by tech; ser belo passa a consituir uma busca cujo objetivo é identificar-se com um grupo de referência, associado a valores exaltados pelo liberalismo econômico. Obviamente que, nesse sentido, ser belo pode igualmente ser associado à questões de gênero, de processos encaminhadores para a terceira idade, bem estar físico e psicológico e outras circunstancialidades que findam por confundir-se entre si. Tal leitura implica também no reconhecimento e na valoração da pessoa quanto ao fato da beleza influir de modo mais ou menos motivador em sua vida. O melhor, para o mercado, é que o estético seja elevado a um valor dentro de uma tábua axiológica de modo a ser associado a desejos coletivos como sucesso de imagem, projeção financeira e constituição de uma network pessoal ou socialmente instiltuída.

Quando uma menina adolescente demanda em ser uma top model, terá de abrir mão de uma cotidianeidade para ingressar em um mundo regido basicamente pela disciplina, pela estratégia e pelo cálculo.  Não basta, então, ser ou estar bela mas, especialmente articular-se para parecer bela, ter uma estratégia para conquistar e permanecer em um mercado instável como o da moda e calcular as possibilidades reais de obter sucesso. A pressão sobre tais adolescentes é enorme, e podem gerar expectativas que levem a doenças que podem ser bastante graves, como a anorexia e a bulemia. Tivemos, há algum tempo, algumas notícias trágicas envolvendo modelos-adolescentes e tais moléstias. Para tudo, trata-se de uma expressão eufemística: “exigências do mercado” ou, em outros termos a dedicação total das mesmas a um tipo-padrão de corpo, dentro do que foi definido como uma idealização mercadológica do corpo feminino/masculino.

No caso de uma modelo ou aspirante a modelo, o romantismo de situações idealizadas dá lugar a uma rotina monástica, na qual a indústria coméstica, dos regimes alimentares estruturadamente restritivos e da beleza vendida ou comprada exercem um peso avassalador sobre a própria psiquê das meninas, que devem estar belas e disponíveis full time para seu trabalho. Corpos são construídos, esculpidos, fotografados e erotizados ordenadamente como peças de produção, estimuladas pela mídia, pelos salários e contratos de exclusividade e pela mídia, além dos produtores culturais.

Milhões de pessoas buscam satisfazer seus próprios egos pelo deslocamento de seus desejos com foco no que a indústria da imagem oferece (e não é pouco). Não mais amamos o que conhecemos ou possamos vir a conhecer, mas especialmente o que vemos mas não podemos tocar, o que nos excita os sentidos. No mundo do espetáculo, a beleza passou a ser, de há muito,  um produto em alta no mercado, sempre sujeita a descontinuidade e ao imprevisível que acompanham, como uma sombra, as próprias modelos, que podem ser descartadas como qualquer outra coisa, desde que surja, aqui ou ali outra atração que possa trazer maior dividendo às companhias.

Hoje buscar a beleza é tentar atender a uma performance visual que se baseia no efêmero, em um senso de estética que se coaduna com ícones pós-industriais e que, portanto, possa ser reduzido a um processo de indiferenciação massificada. De certo modo, é uma competição aberta e cruel dentro de uma área quase que  diáfana, sem que se saiba ao certo, ao fim e ao cabo, o porquê de tanto sacrifício. Mas isso talvez não importe muito; vivemos uma época na qual somos muito mais movidos a sensações do que a reflexões, mais estimulados às percepções do que  às indagações.

Recordo-me de uma palestra que assisti,  cerca de quatro anos atrás, proferida pelo Frei Betto  aqui em Porto Alegre, em um evento da Secretaria Municipal de Educação. Disse o mesmo que em uma cidade do interior de Minas, durante um período de aproximadamente trinta anos houvera uma inversão comercial; se então havia várias livrarias na cidade e uma ou duas academias de ginástica, na atualidade as primeiras haviam  minguado enquanto ocorria um aumento  dramático  das  segundas. Esse é um fato que  demonstra  o quanto  a indústria da  vaidade  pode impactar socialmente.

A questão é singela: ninguém é ou deveria ser considerado mais que outro ou ter um ganho, um capital social de reserva simplesmente por sua aparência. Aliás, se Sócrates ou Platão vivessem hoje e dependessem de suas belezas físicas, estariam ambos relegados a penar – e muito – nas inesgotáveis filas de desempregados. A lista é enorme.

Não se trata pois, de execrar a beleza, mas, antes, de exercer a humanidade que acolhe o gênero humano pelo que ele é, e não pelo que ele representa – no sentido de atuar, de representar como ator em um palco diversificado. Mas isso, talvez, seja uma outra conversa. Sem maquiagem.

Por outro lado, a indústria do design aponta diretamente para três questões principais: beleza, funcionalidade e ergonomia. Nunca na história da humanidade houve tamanha tecnologia disponível para a exploração, em tudo, da beleza. Peças para construção ou para a fruição individual apresentam desenhos belíssimos, atraentes e que se voltam para mais e mais perseguir o consumidor em seus mais remotos desejos. A indústria gráfica, por exemplo, é notável no Brasil, assim como são notáveis os progressos nas áreas de arquitetura, de cerâmica, de pisos e de engenharia. Há uma profusão de beleza industrial alimentada pelas possibilidades infinitas da informática robotizada, que sustenta uma verdadeira revolução estética. A  beleza, em tudo, nos cerca.

Talvez por isso nos seja  tão difícil fugirmos  de  áreas  já demarcadas  de conforto. O desacomodar-se fica mais difícil em meio ao belo,  mas  é da criatividade desse belo e da inventividade do novo que surgem as  melhores oportunidades de trabalho em um mundo no qual  os  padrões rígidos se guardam em nichos cada vez mais específicos, enquanto  se capilarizam  formas e cores e  desejos  elevados  a um nível exponencial.

Dentro dessa perspectiva, não conseguir o belo implica em excluir-se, voluntariamente ou não. Esses limites tênues possuem menos sentido ainda se pudermos, com maestria, indicarmos a nós mesmos e aos outros os significados que atribuímos à beleza e as nossas próprias circunstâncias.

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