AU – O Grande Cubo Branco (2013)

Existem diversas opiniões sobre a cidade de São José dos Campos SP, pois é virtualmente impossível que haja apenas uma. O fato dela ser como éestar como estácontinuar sendo e estando no sentido em que ela vem sendo mantida não indica uma unanimidade. Quando muito, indica uma aquiescência, uma conformidade, uma aceitação silenciosa resultante da impotência ou do desconhecimento de outros modelos de ser e estar da cidade. A preocupação com este assunto, é forçoso reconhecer, não está entre as mais vívidas e ativas entre os citadinos. E a cidade segue firme em seu projeto de ser e estar, um projeto que, como se pode deduzir, não é construído coletivamente, não é cidadão. A questão é complicada por inúmeras razões e fatores, que este texto não irá analisar, mas a São José dos Campos tal como ela vem sendo e estando mostra mesmo este esvaziamento, esta anulação da presença humana: não é preciso sequer ter olhos saudáveis para perceber isto. É como se a falta de participação política, acima notada, por uma ironia assombrosa e esclarecedora, aparecesse sem querer na aparência da cidade. São José dos Campos é uma cidade em que se pode ver claramente a vontade de seus  poucos desenhadores em contraposição às multidões desertadas e às paisagens secas de almas. Por alguma razão, esta cidade é a manifestação da tecnologia estética do Cubo Branco, o ideal modernista da galeria construída para acomodar objetos de Arte com base nos conceitos de isolamento e de anulação do mundo exterior e das realidades não-Artísticas. Etimologicamente, o termo Arte significa o mesmo que Tecnologia. São José dos Campos, conhecida como “Capital da Tecnologia”, é uma cidade construída para que a Tecnologia apareça e seja vista como Verdade Absoluta e sem interferências que informem o contrário. Esta cidade é um gigantesco Cubo Branco dedicado à Tecnologia (à Arte) em que a presença física e viva de cidadãos e citadinos só faz atrapalhar.

São José dos Campos, neste sentido, vem realizando um estranho conceito de cidade pura, ou seja, que se purifica de seus citadinos e cidadãos. É um projeto que, muito paradoxalmente, visa livrar-se da quase totalidade de seus habitantes, fazê-los sumir ou, pelo menos, recolhê-los à sua insignificância e invisibilidade. A poética deste projeto (de Arte, da arte de governar) engloba diversas referências do passado, mas não vale a pena recuperá-las já que são por demais conhecidas.

Akira Umeda, 19 de março de 2013.

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