Sonhos e escritos

Tenho um sonho: ir para Gramado, RS, alugar uma casa e ficar ali escrevendo até que brote um romance, uma série de contos maravilhosos, algo que seja muito bom. No entanto, o sonho não se resume ao local, mas tem outras exigências: primeira, que esteja muito frio, mas muito mesmo. Quero temperatura abaixo de zero, daquelas que te obrigam praticamente a ficar em um ambiente aquecido, com lareira. Quero charutos cubanos e uma banheira com duas manoplas, uma para água fria, outra para água quente, e que haja vapor quando a manopla para água quente for ativada. Quero edredons e ninguém conhecido perto de mim; nem filhos, nem mulher, nem amigos, nem celular, nem televisão, quero uma imersão longe do mundo. Durante o dia, passeios em meio ao frio enregelante, protegido pelo vinho e pela grapa e à noite, simplesmente escrevendo, escrevendo, escrevendo, até que o sono me jogue numa cama como um saco de batatas. 

Não há amantes nesse sonho, apenas a sensação de olhar pela janela e ver a neblina tomando conta de tudo, de tal modo que não enxergue além de dois metros. Quero, de certo modo, a escuridão bendita e perigosa do inverno. Vultos indefinidos a cruzar por mim, todos encasacados, agasalhados, protegendo as mãos e o rosto. Pessoas indefinidas e indefiníveis. Passaria por elas usando meu indiscutível anonimato, andaria pelas ruas entre chuvas finas e garoas cotidianas. As janelas jorrariam umidades e eu estaria simplesmente andando, de lá pra cá, sem saber o nome das ruas, apenas andando, só como vim ao mundo. Quando decidisse, beberia algo, comeria para, após, retornar à dança das ruas enregelantes. Perguntaria a um perfeito desconhecido como voltar para minha base, para minha casa prostituída, alugada, e lá ficaria como um urso hibernando ideias que misturariam dramas e poesias, contos e romances. 

Em meio a tais passeios, compraria livros, e me aproximaria deles com uma curiosidade virginal, como se eles trouxessem de volta a vontade de escrever. Alguns não abriria, não leria, porque ler um livro exige uma dedicação especial, um ato de absoluta crença na humanidade. Livros são portas, e algumas delas devem permanecer fechadas. E escreveria novamente, como que tomado por um êxtase divino, como se fosse um sefardim enlouquecido, como se Erev Yerushalaim transbordasse de meu peito. 

Ao longo e ao cabo, teria de voltar, retornar ao cotidiano do qual Gramado é apenas um sonho, um especial lenitivo, e, com dores no corpo, abandonaria a casa, ou o hotel, tanto faz, enfim, abandonaria meu útero sagrado, voltaria quando o cordão umbilical rompesse como uma tênue madrugada, como um aviso de que a vida, enfim, continua. Mas, junto ao meu peito, a escrita continuaria, como uma amante que se debruça sobre o amado para devorá-lo.

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