AU – Memórias

Considerações bastante abstratas, distanciadas e até mesmo hipócritas acerca da palavra “Memória” costumam figurar nas conversas e textos situados no campo da “Cultura” e, mais especificamente, do “Patrimônio Cultural”. São importantes e buscam articular o sentido histórico ou pós-histórico de diferentes realidades, o sentido da própria vida, mas é forçoso reconhecer que a palavra “Memória” é considerada de forma concreta, operacional e efetiva, por exemplo, no campo da “Tecnologia”. De fato, os esforços no sentido de valorizar a “Memória” vêm crescendo exponencialmente nas justificativas de projetos implantados e implementados nas mais diversas áreas, tanto nas políticas públicas quanto nas iniciativas privadas, o que é surpreendente especialmente se se considerar o fato de que vinte ou trinta anos atrás a valorização social da “Memória” era um argumento pífio, inócuo e pouco empregado, a não ser em âmbitos restritos e específicos como a universidade. Hoje em dia, o apelo à valorização, preservação e acesso aos diversos suportes da “Memória” está por toda parte, muitas vezes como mero recurso de retórica, mas nem sempre.

A preocupação com a “Memória” é justa. O nosso é um tempo em que as informações e deformações que atualizamos e reatualizamos a todo momento, todos os dias, estão sendo transferidas, mais rapidamente que em outras épocas, para nossas extensões remotas que chamamos de “Tecnologia”, ou seja, dispositivos e aparelhos eletro-eletrônico-digitais diversos. Os números de telefones, por exemplo, que conseguíamos ter “na cabeça” no passado estão migrando dela para os aparelhos de telefonia celular e, de modo geral, temos a impressão de que não mais conseguimos recuperar a velha capacidade de memorizar números de telefones. Os mais jovens nasceram já num contexto em que gravar números de telefones “na cabeça” é ação inexistente e inconcebível: não há, na memória dos mais jovens, a própria situação improvável de memorizar números de telefone “na cabeça”. A própria fotografia, que não é nem de longe um fenômeno recente, aparentemente já continha em seu programa o objetivo de poupar espaço “na cabeça”. Hoje, isto é fato: não nos preocupamos em ver mais nada e apenas fotografamos para ver depois (se é que veremos). Não mais “lembramos”: o que chamamos de “lembrança” é, de fato, o nosso primeiro encontro com o que fizemos com que a câmera fotográfica visse. Não mais “memorizamos”: o que fazemos é criar um banco de dados que carregamos conosco o tempo todo em nossas extensões, em aparelhos e dispositivos “fora de nós”. A perda destes aparelhos e dispositivos pode, eventualmente, ter efeito similar a uma lobotomia ou acarretar uma situação similar à de uma síndrome de Alzheimer.

Desnecessário multiplicar os exemplos. “Memória” é uma palavra que deve ser utilizada com responsabilidade pois aponta para coisas muito mais sérias que o mero adorno da retórica. Os que estão mais ou menos familiarizados com problemas concretos relacionados ao desaparecimento da “Memória”, como a convivência com pacientes portadores da síndrome de Alzheimer, têm a chance de compreender a situação real do que é a “Memória”. Compreender a sua concretude e a sua materialidade é um desafio que as políticas públicas de patrimônio cultural não podem subestimar. Muito menos transformar em vã hipocrisia.

Akira Umeda, 2013.

Escrito por Akira Umeda

julho 26, 2013 em 11:21 pm

Publicado em cidade

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