Carta para Ana Paula a respeito de hábitos e aparências

Gênesis – Sebastião Salgado

Este post publicado pela querida Ana Paula Umeda está relacionado com o post que será publicado em seguida, a respeito de Sebastião Salgado.

ANA PAULA UMEDA POSTOU NO FACEBOOK

“Fiquei chateado vendo quanta gente da minha geração (e posteriores) olha as fotos por esporte, buscando “falhas técnicas” em vez de simplesmente absorver a mensagem.”

E me fez pensar no porque de nos apegarmos a detalhes tão insignificantes em detrimento do que realmente importa. E isso não é privilégio da fotografia, das artes ou seja lá do que for, é em praticamente tudo nessa vida, seja no âmbito pessoal ou profissional, parece que perdemos a capacidade de simplesmente aproveitar o que nos é ofertado de bom e focamos apenas no ruim. Obviamente que nada é perfeito, aliás eu nem saberia definir o que seria perfeição. Mas, por exemplo, se você está reunido com os seus entes queridos em uma atividade agradável, seja uma festa em casa ou um papo de bar, por que você vai se importar com o fato da cerveja ter sido servida no copo americano e não no tulipa? ANA PAULA UMEDA.

Ana Paula.

Vivemos hoje e agora (amanhã poderá sem dúvida ser diferente sendo sempre o mesmo) a síndrome do perfeito, palavra ou, no caso, expressão absolutamente coerente com o mundo consumista e imagético no qual vivemos. Nada melhor e, especialmente nada menos do que o perfeito é o que importa.  Nessa obsessão pontilhista em que vivemos, na qual cada um pretende participar de um grupo social, tendo de negociar, através do consumo e da aparência, seu acesso e fugaz permanência no mesmo, o comportamento esperado é o melhor que se possa esperar, o que inclui mesmos hábitos, mesmos comentários, mesmas discussões.

 Isso revela uma padronização necessária e o acesso a bens de consumo, o que leva a uma vida perfeita, pelo menos se entendermos que Truman Burbank leva uma vida assim em O Show de Truman. De todo modo, isso nos faz perder um pouco de perspectiva de um mundo real, esse longe da perfeição. Nem sempre é necessário que assumamos nossas personas, devemos, pelo menos de quando em quando nos perdermos no caos da vida e das relações. Perseguir a perfeição não é uma tarefa para quem nasce no mundo capitalista e/ou tomado por religiões que geram, muitas vezes, fanáticos e insensatos. No entanto, podemos usar as nossas máscaras diárias para fingirmos um mundo de Truman, o que nem sempre é muito eficaz.

Quanto aos pequenos prazeres, esses muitas vezes se perdem entre promessas e esquisitices. Cobramos autenticidade dos demais, mas nós mesmos muitas vezes fazemos um esforço tão grande para a busca da perfeição, em todos os sentidos, que nos autopoliciamos e nos autoculpamos de tal modo que fica difícil assumirmos nossos próprios prazeres e idiossincrasias. Assim como grupos de ancestrais macacos – nosso medo de nos perdermos do bando nos faz adotarmos as próprias falas e maneirismos reconhecidos por todos que habitam o mesmo e estranho local. Somente comemos as banana quando os nossos amigos bonobos concordam que devemos comê-las todos. E, como sabemos, bonobos adoram a mídia. Grande abraço, Ana Paula.

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