Sebastião errado?

Lá fora no mundo civilizado, este fotógrafo mineiro é considerado por unanimidade um dos grandes mestres da arte da imagem. Há críticos que o descrevem como Ansel Adams, Dorothea Lange e Nick Brandt reunidos numa só pessoa. Já no Brasil…

Genesis-Capa,

Como em qualquer outro assunto imaginável, existe aqui uma divisão tão extrema de opiniões que bem poderíamos estar falando de jogadores, campeonatos e clubes. Só que os grandes fotógrafos e suas obras – espero que você concorde – são temas mais relevantes que o futebol.

E, tal na fotografia como no futebol, pessoas defendem suas opiniões como se “vencer” as disputas com elas fosse o imperativo para validar a própria existência terrena. O que resulta em nunca se chegar a um consenso pacífico sobre nada.

O interessante é que desta vez Sebastião não está sendo polêmico entre os brasileiros pela razão de costume, a ideológica. Não está em foco a antiga acusação de que ele “estetiza e comercializa” a pobreza do mundo, ataque crítico que foi empreendido contra projetos como Trabalhadores eMigrações.

Em sua presente magnum opus, Salgado retorna ao mundo pré-civilização movido por um sentimento de otimismo. Para ele, a ação dos seres humanos, ao mesmo tempo em que é uma praga do planeta, pode ser também a chave para sua salvação.

O conjunto de seu trabalho nos põe a pensar, como fazia antes o pioneiro filme Koyaanisqatsi, que talvez tenhamos assassinado nossa própria alma em troca de uma mera ilusão vaga que batizamos de “progresso”. Um comentário no IMDB dirigido ao filme poderia perfeitamente ser aplicado ao tema fundamental dos ensaios autorais de Salgado:

Enquanto a intrusão do ser humano é apresentada inicalmente como algo profanador e abominável, surge uma simetria na experiência humana que é tão orgânica quanto os fenômenos do mundo natural. Eu estava tentado a enxergar os humanos como a única espécie do planeta que não se encaixa, que a tudo arranca de seu equilíbrio, mas com o passar do tempo ficou aparente que até mesmo a praga trazida pelo homem sobre a Terra é um fenômeno natural. A evolução da vida implica a destruição da vida. O círculo não se interrompe.

Claro que há uma diferença importante: Salgado revela em Genesis um sentido de esperança que falta em Godfrey Reggio. A ideia dele não é mais fotografar a aventura humana com um olhar crítico. Os artigos mencionam que Sebastião ficou tão exausto dessa abordagem que pensou em abandonar a fotografia. Mas existe um outro excelente motivo: já existe muita gente fazendo isso. Já vimos suficientes imagens de usinas atômicas derretendo, cidades explodindo em convulsão social, pássaros marinhos sufocados por camadas de petróleo derramado, bandidos poderosos curtindo a vida impunemente, baleias arpoadas, crianças massacradas, focas espancadas e outras desgraças que nos dão vergonha de sermos o que somos.

Neste trabalho, Salgado retorna ao que havia pronto no mundo antes de nós chegarmos e, teimosamente, insiste em seguir existindo: um “planeta eterno” que talvez possamos ainda recuperar.

Fiquei chateado vendo quanta gente da minha geração (e posteriores) olha as fotos por esporte, buscando “falhas técnicas” em vez de simplesmente absorver a mensagem. Todo mundo sabe que ele tem tratador em Paris; que faz somente a seleção das fotos a partir de contatos impressos; que deixa aos assistentes as orientações sobre o ajuste dos tons. Nisso, aliás, ele não está sendo nada original: o semideus Cartier-Bresson agia precisamente da mesma forma. Sua meta era o ato de obter a imagem; a cópia retocada e ampliada era uma decorrência.

E existe mais um tema de dissensão. Durante o projeto Genesis, Salgado transicionou da película para o sensor digital. Também apareceu gente achando ruim, especialmente porque ele confessou que estava adorando o material digital (gerado na Canon EOS-1D) por ter “mais qualidade” que o analógico. É uma opinião que vai totalmente na contramão do hype, já que a versão dominante é de que o filme de 35mm ainda hoje não teria sido superado pelos pixels. Falar, aliás, qualquer coisa que soe como demérito ao filme é sacrilégio…! Mas aí você vê as ampliações das fotos de Genesis nas exposições e… onde é que dá para enxergar pixels? E quais das fotos são de filme? Importa saber isso? Não importa.

Em sua entrevista mais recente (Roda Viva, na TV Cultura de São Paulo), Sebastião abriu o coração:

É um grande privilégio ser fotógrafo. A profissão de fotógrafo é muito recente. E possivelmente, com a mudança tecnológica, ela chegará a desaparecer. Muitos fotógrafos dizem que são artistas. Eu não sou artista coisa nenhuma: sou fotógrafo. Porque é um privilégio total ser fotógrafo. As oportunidades que você tem de ver, conhecer, participar e ligar sua vida a um momento histórico…!

Existem várias outras coisas em que Salgado não tem nada a ver com nosso colega de papo de bar. Por exemplo: ele fala “negro e branco” em vez de “preto e branco”, por influência europeia.

E daí?

Será que Sebastião Salgado seria “melhor” em alguma coisa se ele se ajustasse ao hype?

Desconfio que a obsessão dos neo-fotógrafos pela técnica mascara uma insegurança profunda, que foi sabiamente analisada pelo polemista norte-americano Ken Rockwell, meu testador de câmeras favorito:

É necessário ser um fotógrafo habilidoso para obter grandes fotos a partir de qualquer câmera. Comprar uma câmera tecnicamente superior não tem nada a ver com fazer fotos melhores. Assim que você desenvolve capacidade para produzir belas fotos com uma câmera, pode fazer o mesmo com qualquer outra. É a mesma coisa com pianos. Um Bösendorfer de cauda pode ser melhor que o piano de armário do bar que você frequenta, mas se você não souber tocar piano não vai fazer música com nenhum dos dois. Qualquer um pode martelar um piano, assim como qualquer um pode clicar com uma câmera. Mas é preciso ser artista para conseguir resultados decentes com um ou com outro. O lado triste disso é que muita gente bem-intencionada acha que a fotografia se resume a comprar uma câmera.

Eis os dois principais desafios à maneira corrente de pensar de inúmeros jovens fotógrafos. 1: O equipamento não significa nada quando não se sabe criar imagens. 2: Fotografar é uma atividade recompensadora em si mesma.

Não é de admirar que exista bastante gente, dentro e fora do meio fotográfico, que não gosta de Salgado. Os princípios expressos acima parecem ser alheios ao que se ensina no dia-a-dia prático da fotografia comercial, que frequentemente é cínico, desgastante, hipercompetitivo e sub-compensatório.

Dizer que fotografar é um privilégio não é a mesma coisa que dizer que “fotografia é arte”, “poesia do olhar” e outras platitudes ridículas que já cansamos de encarar por aí. Quando alguém cai de paraquedas em uma discussão de fórum para repetir esses chavões sobre “arte”, você até pode explicar pacientemente que a fotografia não é uma arte em si, mas determinados usos da fotografia podem ser artísticos – definição que qualquer pessoa inteligente saberá aplicar a todas as linguagens de comunicação. Aí o “wannabe” lê isso e já quer partir pra briga, chamar você de pedante etc. porque ousou contrariar sua “opinião”.

Se alguém não ama a fotografia por sua condição de linguagem capaz de unir os seres humanos, vai desperdiçar o seu tempo procurando poeira no sensor em vez de fazendo belas fotos portadoras de mensagens relevantes.


Salgado conferindo a edição especial da Taschen. Custa até US$ 10 mil, dependendo do kit

livro está disponível em edição “econômica” por um preço bem razoável. E ainda 2em aí o documentário de making of, com assinatura do grande Wim Wenders.

FONTE: http://marioamaya.com.br/blog/2013/09/19/sebastiao_errado/

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