Mentir, a velha prática

Não sei sobre o que escrever. Estou voando, livre, sem nenhuma ideia em mente. Interessante isso: em mente, em-mente, mente, desmente e por fim, mente. Mente, qual mente? A de pensamento ou a outra, mente de mentir, eu minto, tu mentes, ele (também) mente. Todos (nós) mentimos, e sempre de modo contínuo, moto contínuo de mentir, uma sociedade criada, abarrotada, inflacionada de mentiras. Para mentir, usamos a mente, pensamos a mentira, mas nem sempre, às vezes ela mesmo se apresenta ali, lassa, pedindo, “me usa, dou tão confortável, adormeço consciências, fomento consistências”, ela, ali, piedosamente rogando para que nós possamos mentir em paz.

Mentimos sempre que necessário, mentimos para nos escondermos, mentimos para seduzirmos, mentimos porque deve ser delicioso mentir, inventar uma historinha, alfinetar alguém, algum desafeto. A mentira é o nosso esteio, o nosso porto seguro, mentir é bom, muito bom, é um exercício de irresponsabilidade mas, afinal de contas, porque temos de ser responsáveis o tempo todo?

A mentira é o pressuposto da nossa civilização; é a partir dela que comerciamos, que traímos, que inventamos novas idéias, que fazemos os outros se curvarem de modo submisso. É a mentira que criou a subordinação, o senso comum, as práticas hedonistas e religiosas. A mentira é uma cocaína para o nosso way of life.

Ser responsável é uma chatice, uma tolice não apenas gramatical, mas uma linha reta. A mentira não, ela é uma curva, uma coisa melíflua, adjetiva, jamais substantiva. A verdade é substantiva, a mentira é uma naja que vai se enroscando lentamente, como uma camada de verniz sobre um móvel cheio da poeira dos tempos.

A mentira ajuda a esconder, a camuflar, a iludir, a fazer com que os outros só conheçam o que nós desejamos trazer à público. É uma armadilha para os outros. A mentira é o que nós dissemos de modo tão convincente que os outros acreditam, uns porque são ignorantes a respeito do que se diz, outros porque querem acreditar. Os últimos são melhores, porque espalham a mentira por aí, como se fosse um vírus. A mentira é pública, a verdade é privada.

O mundo conhece a mentira, somente os amigos, os íntimos, os que nós desejamos é que conhecem a verdade, portanto o mundo vive enclausurado num barril de mentiras, que de quando em quando podem explodir. Se acontecer, melhor, teremos um belo efeito pirotécnico.

A mentira é substancial para nossas vidas ocidentais e para nutrir as máscaras que usamos no cotidiano, no dia-a-dia, na aporrinhação do trabalho e no convívio com as pessoas que não nos cativam, que não nos agradam, que são muito e terrivelmente retas. O mundo mente. Se dissesse a verdade, não estaríamos mais por aqui. Já teríamos desistido de tudo.

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2 comentários sobre “Mentir, a velha prática

  1. “Há diferença entre o engano e a ignorância. Enquanto esta consiste em nada saber, logo, em nada afirmar, aquele consiste em não saber e afirmar sob o pressuposto de que sabe. ‘É uma ignorância que se ignora’”.
    “O erro, em Lógica, chama-se falsidade. Em Moral, quando a pessoa erra conscientemente, chama-se mentira.”
    “O erro pode ter causa lógica, psicológica ou moral:
    1. Causa Lógica: quando provém da insuficiência de inteligência, que não consegue desenvolver uma atividade crítica, ou de apreensão equívoca do significado de termos:
    2. Causa Psicológica, quando provém da insuficiência de atenção, de memória, de intuição ou quando provém de reações motivadas inconscientemente, como no caso dos recalques ou conturbação intelectual e emotiva, provocada por paixões:
    3. Causa Moral, quando provém de atitudes de vaidade, interesses egoísticos, preguiça mental etc.”
    In Introdução à Lógica, de Imideo Giuseppe Nerici.

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