O ônibus e a moça

EM PORTO ALEGRE HÁ CORREDORES DE ÔNIBUS E ali ônibus somente abrem e fecham suas portas apenas uma vez, e não adianta fazer absolutamente nada para mudar isso,  pois a flexibilidade é zero. Por que eu não sei, mas é o que acontece. Não importa o seu ar de desespero. Portas cerradas não serão abertas. Solidariedade zero, regras dez a pronto. Simplesmente funciona desse jeito.

Início da tarde, estava esperando o ônibus, quando uma moça entrou em carreira no corredor, pedindo para embarcar, mas o motorista, com a sensibilidade de uma jamanta descendo morro abaixo, simplesmente fechou a porta praticamente no rosto da menina e arrancou. A menina então começou patética e desesperadamente a correr ao lado do ônibus. Ela se expôs, inclusive a tropeçar e se machucar gravemente. O ônibus, impávido colosso, simplesmente ignorou o fato e prosseguiu Protásio Alves acima. Pelas tantas a moça desistiu de sua corrida.

Foi aí que uma senhora, ao meu lado, comentou: “se ela caísse e morresse atropelada, eu ia ser a favor do motorista”, disse, porque “as regras são as regras”. Fiquei pensando sobre aquilo. É claro que a moça havia se arriscado demais, mas o que me chamou a atenção foi o argumento utilizado. Novamente nenhuma solidariedade. Afinal, é um erro correr atrás de um ônibus, mas somos seres humanos, portanto não somos previsíveis, nem somos preordenados para seguirmos convenções ditadas por terceiros.

O que levou a moça a correr, é algo que jamais saberemos, mas o que eu sei é que cada vez mais nos comportamos em relação aos outros como coisas mandando ordens para outras coisas, como robôs programados por um sistema neurótico que cada vez menos entendemos, mas, paradoxalmente, que tenta regrar nossas vidas.

A senhora falou com frieza e disse que se a moça tivesse sido atropelada, seria problema dela. Nenhum comentário ou alusão ao fato do perigo que ela corria, apenas uma frase que justificaria tudo, mesmo a lesão de alguém, no caso, não seguir regras.

Cada vez menos praticamos a empatia; pior, nos esquecemos que nós mesmos temos comportamentos imprudentes, voláteis, imprevisíveis. Esquecemos, por vezes, que não somos máquinas, mas, possivelmente uns parvos que tomam a si regras administrativas como se elas fossem ditadas por um espírito superior. Alguma coisa aqui, sem dúvida, se perde aqui.

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