Saber se dar valor, by Rose Chiappa

Ontem, fui ler a letra da canção que tornou Whitney Houston conhecida aqui no Brasil: Greatest love of all. Eu me lembro de quando essa música estourou por aqui junto com sua cantora, era o ano de 1986, eu tinha 16 anos e, como todas as minhas amigas, me derretia ouvindo esta música que julgávamos ser uma canção de amor, nenhuma de nós entendia inglês e não havia ainda Internet a nos oferecer a tradução da música e os vídeo clipes não eram legendados, aliás, sequer havia programas específicos de vídeo clipes naquela época. Havia a palavra “love” na música, não havia? Isso e mais a forma apaixonada com que Whitney a cantava nos dava a certeza de que era uma canção de amor, então quando era executada no rádio, abraçávamos nossos ursinhos de pelúcia e ficávamos a sonhar com um grande amor. Então, meus mitos foram sendo derrubados: grandes amores são tão raros quanto ossadas de mamute, amor não traz felicidade (não trouxe para mim) e a canção fala sobre crianças e ensiná-las a ter autoestima. Acho que foi na rádio Cidade que eu ouvi a tradução de Greatest love of all e perdi meu interesse por ela, isso já por volta de 1988.

Vinte e seis anos se passaram, sua cantora está morta e, há algum tempo, voltei a me interessar pela música, afinal, promover a autoestima é importante para uma professora do Laboratório de Aprendizagem. Hoje, não preciso da tradução de uma rádio para entender a sua letra, isso é uma coisa que ainda me espanta: a capacidade que eu tenho hoje de entender o que é cantado nas canções que me encantavam, quando eu ainda não dominava a língua inglesa. E lendo a letra de Greatest love of all não posso deixar de ficar chocada, triste e pensar que Whitney deveria ter prestado mais atenção ao que estava cantando e seguido o conselho que cantou na música que a tornou mundialmente conhecida.

Greatest love of all é basicamente uma canção que fala sobre autoestima, sobre se dar valor, amar a si mesmo, não se deixar diminuir ou não se sentir diminuído por ninguém e fala da importância de ensinar estas lições às crianças. Greatest love of all também deixa muito clara a ideia de que é preciso saber amar a si mesmo e de que este é o amor mais importante.

A tragédia de Whitney foi não ter seguido os conselhos que ela cantou tão apaixonadamente em Greatest love of all. Ela apaixonou-se por um traste – tudo bem, isso é perfeitamente compreensível e desculpável, quase toda mulher já se apaixonou por um traste em sua vida, há mulheres que se apaixonaram por mais de um traste e há aquelas que  se apaixonam por trastes (acontece, infelizmente, eu mesma faço parte do último grupo). A tragédia de Whitney é que ela se apaixonou por um traste, casou com ele e deixou que ele destruísse a sua vida, a sua carreira e o seu talento. Whitney permitiu que esse homem a convencesse que ela valia pouco. No fim das contas, o amor de Whitney por si mesma não era tão grande ou forte e ela aceitou as traições e bebedeiras de Brown, passou a consumir cocaína e crack – drogas que lhe foram apresentadas pelo marido, e se permitiu abusar física e psicologicamente por ele. O que Whitney não percebeu é que os sentimentos que ela nutria por Brown eram mais fortes do que o amor e o respeito por si mesma, não viu que ela valia mais do que aquilo e passou a viver na sombra dele, permitiu que ele embaçasse a sua luz, fazendo exatamente o contrário do que cantou.

Mulher nenhuma deveria acreditar que vale menos do que o traste que a abusa. Nós deveríamos ter a capacidade de ensinar às nossas meninas que nenhum amor pode ser maior do que o amor por si próprias. Nenhuma mulher deveria se amar tão pouco a ponto de continuar com o traste que a maltrata, que a abusa, que a espanca. Whitney não encontrou inspiração na música que cantou, foi sua filha, Bobbi Cristina, quem abriu os olhos de Whitney para o seu valor. Em entrevista para Oprah, Whitney contou do dia em que Bobby cuspiu em seu rosto e que sua filha viu e perguntou:

– Mamãe, ele cuspiu em você?

– Está tudo bem, filhinha… – teria sido a resposta de Whitney à filha horrorizada com o que presenciara.

E sua filha, uma criança ainda, lhe devolveu:

– Não, mamãe, não está tudo bem. Ele não pode fazer isso com você…

Ouvir essa verdade tão simples, tão contundente e tão sábia da boca da própria filha acordou Whitney para o seu valor, para o que ela estava permitindo que fizessem com ela e, em seguida a este fato, Whitney deixou o traste e entrou com o pedido de divórcio. Pelo que eu me lembro, se não estou confundindo com outra história, Bobby Brown era tão violento que, para deixá-lo, Whitney saiu de casa com a roupa do corpo, saiu dizendo que ia comprar leite e uma amiga mandou para o aeroporto a passagem que a tiraria da cidade.

Agora é torcer para que sua filha aprenda as lições que sua mãe não aprendeu e saiba se dar valor. Realmente, Whitney deveria ter ouvido mais Greatest love of all.

ROSE CHIAPPA

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