Utopia pós-feriadão

EM 2011

Após um feriadão que iniciou no dia 09, estamos retornando ao trabalho hoje. Pois bem, aqueles professores que tem um dia de folga nas quartas-feiras, não trabalham desde o dia 08 (hoje é treze de abril). Convenhamos: é um senhor feriadão, para todos os gostos. No mínimo dos mínimos, quatro dias sem ir para a escola. Pois hoje, bem no início da manhã, por volta das 7 h 35, o que mais escuto na sala dos professores são reclamações. O feriadão foi curto – Ah, que inferno ter de começar tudo de novo – Não gosto de feriado porque perco meu ritmo de trabalho – Hoje quando me levantei e vi que tinha de ir à escola, me estragou o dia – Como foi bom ficar longe daquelas pragas – e assim por diante.

Não é um bom modo de iniciar uma volta de feriado, mas o que escrevi acima não ocorre somente nos retornos. Se você pensar que dali a minutos estará em sala de aula, ensinando adolescentes, terá claramente que esses comentários não levam a nada e que, além disso não existe, nesses professores nada mais além do ranço e do que entendem ser uma obrigação (lecionar), um ônus, um peso enorme a ser sustentado em seus ombros. Reclamam do próprio ofício, bem como de seus alunos o que não melhora a sua relação com o seu fazer profissional. Se não me engano, Confúcio disse: “escolha um trabalho que ama e não terá de trabalhar um único dia em sua vida”.

É claro que talvez alguns dos leitores pense que estou exagerando: é possível, se pensarmos somente na situação descrita; aliás, é bem possível que pense assim. Ocorre que isso é um padrão, uma linguagem já incorporada, uma tábua de argumentação negativa na qual muitos dos meus colegas se apoiam. Dar aulas não é prazer, acaba se transformando em uma tortura. Quando interiorizamos tal padrão, passamos a ser instáveis, infelizes, sonhando com um oásis como se sonhar fosse suficiente.

José Saramago, convidado para o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, cujo tema era “A utopia é possível”, confessou que não gostava desse termo, utopia e que portanto, estava na contramão do evento. Disse Saramago que a idéia de utopia era paralisante e que, antes de sonharmos, teríamos que enfrentar as realidades e que ela própria, utopia, dependia menos de recursos retóricos e mais de ação. Fazendo uma analogia, de que adianta sonharmos e especialmente nos estressarmos se o local onde trabalhamos ou os nossos alunos não são nem de longe os sujeitos cognitivos que pregava Piaget, enquanto fazia suas observações tão aplaudidas entre crianças suíças de classe média e alta?

Será que merecemos nos desgastar bem mais do que o que já fizemos? Será que ainda somos tão dependentes do pensamento mágico que falava Freire ou será que elegemos o caminho da permanente reclamação como o melhor a ser seguido? Tenho a impressão de que Saramago nos socorre de modo bastante eficaz, assim como Confúcio já o tinha feito séculos antes de Cristo nascer. Do mesmo modo, parece que esquecemos nossa capacidade de ouvir, e mesmo de ficarmos quietos, atentos, o que reduz enormemente outras habilidades.

De toda forma, você pode optar por buscar realizar a utopia ou ficar reclamando na espera que o seu circuito interno queime de vez. É bom não esquecer que, ao contrário do que muitos pensam, não é a razão que nos comanda, mas nossos sentimentos e emoções (a parte submersa do iceberg, que é bem maior que a emersa). Reclamar é o mesmo que buzinar em um engarrafamento. Enquanto pensamos sobre isso, talvez devêssemos sossegar nossas idiossincrasias e raivas e melhorar um pouco mais o ambiente geral, exercitando nossa gentileza, nosso bom humor e nossa inteligência emocional, o que seria bem melhor do que envenená-lo com nossas neuroses e achaques pessoais.

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