Os movimentos das marés

Tudo era absolutamente conhecido e naturalizado. Os registros tão-só ratificavam o que todos sabiam. No entanto, embora houvesse denúncias suficientes para mover céus e terras, não havia qualquer interesse em fazer com que os céus e/ou as terras se movessem, pois gente demais poderia ser desacomodada, aborrecida, importunada. Não qualquer gente, mas as afluentes, influentes, com um pedigree inconfundível e com acessos ilimitados de toda e qualquer ordem, financeira, pessoal, cultural, jurídica, estética, mas não ética, poderiam perder dinheiro, outras deixariam para trás prestígio e poder.

Tais pessoas induziram as demais a um lamaçal de contraprestação de favores, naturalizaram um pastoso pacto mental, não escrito e mais do que conveniente de reciprocidade invisível, fluido, baseado na necessidade mais do que clara da manutenção do que já estava proposto. Enquanto denúncias fossem passíveis de ser acomodadas, procrastinadas, deixadas pra lá, empurradas com a barriga, e os interessados pudessem subornar, cooptar, corromper, chantagear, oferecer gadgets para que ninguém fosse prejudicado, haveria um equilíbrio de interesses que, em princípio dava uma certa impressão de instabilidade, mas que o passar do tempo mostrou que, aplicada a logística adequada, tenderia rapidamente à estabilidade.

De tal modo foram se solidificando hábitos, práticas, expedientes, pequenos e grandes favores, médios subornos e dádivas incompreensíveis que a normalidade legal passou a ser um exercício de cidadania de segunda classe. O sistema em marcha requeria um muito de favores e um mínimo de argumentos justificativos. Enfim,  erigiu-se uma base de conveniências escudada unicamente na reciprocidade. Os canalhas aprenderam rapidamente como se exerce, na prática, a solidariedade.

Claro que alguns detalhes normalmente careciam de ajustes. O grupo em ascenção era formado por uma rede informal estabelecida por aqueles que tinham interesse em preservar o silêncio. Algumas poucas ameaças de delação espoucavam aqui e ali, mas nada que uma cota extra de dinheiro não resolvesse.

A imprensa, ora, a imprensa!, também estava adubada com algumas influências que permitiam certos empréstimos de última hora e que eram tratados às socapas nos gabinetes, chamados carinhosamente de bank of hot money e pela fraternidade que inflava verbas publicitárias e de outras ordens, fiscais, tributárias, entre outras barganhas distribuídas e assistidas entre algumas beneficiadas nacionais ou multinacionais, que viam aí um investimento político de longo prazo, até porque, na proximidade das eleições, parte dos lucros deveriam retornar ao braço público-político, evidentemente não da forma de receita tributária, mas, sim, via financiamento de campanhas políticas interessantes ao próprio capital.

A imagem é tudo, batiam palmas os mass media, enquanto o trem se mantinha nos trilhos. O tempo passava, havia um cheiro de felicidade no ar, com grandes quantias de dinheiro circulando livremente para lá e para cá, sem que ninguém se importasse muito, desde que os mesmos não vazassem ou extrapolassem as suas fronteiras estritas, cujos limites eram traçados au gabinet.

Um dia um operário foi executado pela polícia, que o confundiu com um traficante. No dia seguinte, pessoas indiferentes ao Mercado se reuniram no local onde o proletário morreu, e fizeram uma homenagem. Alguém então subiu num engradado de cerveja e iniciou um discurso de conscientização. Quando a polícia chegou, todos haviam se dispersado. No dia seguinte, como em um planejado stand up, outra manifestação. E outra, um pouco mais além. Até que, de repente, algo começou a ruir. Parecia ser um movimento controlado nas cadências e passos da cidadania nas ruas.

Um ideário inteiro parecia regressar de tempos já tão distantes que se custava a crer que alguém, de sã consciência ainda pensasse em liberdade e apostasse em movimentos e culturas locais. No ponto de ruptura, tais manifestações começaram a ser pautadas pelos jornais, enquanto os mass media passaram  a dizer aos seus inefáveis clientes que seria interessante ligar a imagem institucional do empresariado a uma nova e avassaladora força política que, além de tudo, não poderia mais ser ignorada. A velha prostituta chamada imprensa se travestiu de virgem virtuosa a favor das liberdades individuais e sociais. Era o que faltava. Assim como as marés, a  (r)evolução, finalmente, começara.

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