Tenho 56

Para alguns mais jovens sou uma figura que se localiza entre o paleolítico e o neolítico, embora o meu comportamento, regra geral, não seja estritamente conservador. De todo modo, há algumas reações, especialmente de alunos (ou matriculados), que denotam qual o papel social que reservam “aos mais velhos”. Há muitos exemplos disso. Um deles: estou passando pelo pátio da escola, onde há um grupo jogando volei. Peço para dar um saque, só para brincar um pouco.  “O professor vai sacar??!!”, dizem algo entre o incompreensível (o professor de matemática sacando) e o inesperado (ele não vai saber, ele vai errar, ele está invadindo o nosso território).

O saque faz uma breve viagem e acabo convertendo um ace, que, é claro, não conta para o time. Às vezes, quando deixo, converto mais de um ponto. Saio feliz e sigo meu caminho. O que mais me chama atenção é, justo, o comportamento de determinados alunos (deixemos assim), para os quais a categoria social e profissional professor ( à exceção óbvia do professor de educação física) pertence a uma outra esfera, a um outro mundo no qual há portões de inacessibilidade.

Professores ou adultos maduros são outros nos quais não se refletem alguns (ou a maioria) dos adolescentes. Outra situação: são poucos os alunos que normalmente cumprimentam os professores. Aliás, no meu caso, eu diria que são pouquíssimos. É hábito comum a não gentileza com quem não compartilha da mesma tribo, do mesmo clã.

De todo modo, não consigo entender como um déficit, como um valor negativo o fato de ter cinquenta e seis. É claro que existem doenças preferenciais, uma maior vulnerabilidade e que o corpo não vai responder tão prestimosamente a quem começa a chegar perto dos sessenta e não tem uma história de cuidados especiais com o corpo, como, por exemplo,  fazer ginástica e caminhadas rotineiramente. E também é verdade que uma vida razoavelmente gratificante não é algo que sugira ser este um argumento que possa excluir o regramento de uma vida física construída na base do bom senso. Enfim, é uma fase de vida na qual os verbetes diabetes, colesterol, triglicerídeos, sedentarismo, entre outros, passam a habitar o dia-a-dia. É uma mudança e tanto.

Por outro lado, há histórias vividas, há perdas, há conquistas, há todo um desenvolvimento que se foi lastreando ao longo do tempo. Coisas, sentidos, sentimentos muitas vezes intangíveis mas vividos intensamente, teias de realidade, de desapontamentos, de (re)conhecimentos. Às vezes a experiência mostra sua face mais visível através da predição; de alguma forma aprendemos a ler o outro.

Talvez por isso eu pense que a vida tem um eixo muito forte em teias discursivas, em argumentações e em hipóteses. Por aí, porque é a própria experiência que, de certo modo, suaviza os impactos que a incerteza possa trazer. Muitas vezes escrevo e já escrevi no blog a respeito das relações conflituosas, quase dramáticas que existem na escola. No entanto, de vez em quando ocorrem alguns insights. Ontem à noite tivemos uma formação da SMED para professores. Gostei da exposição dos dois palestrantes, mas isso é assunto para outro post. A questão é que, enquanto ouvia um deles, me veio claramente a idéia de ingenuidade.

Na condição de professores, brincamos de maturidade mas somos ingenuos; agora, tenho clareza disso. Somos tolos em relação a nós mesmos, principiantes em um mundo totalmente fragmentado, em que existem novas chaves de acesso que desconhecemos, ensinando ou tentando ensinar para quem se encontra em uma posição social e econômica irrelevante, na gélida e realista expressão de Jeromy Rifkin (1).

Enquanto discutimos os últimos modismos educacionais, aprofundamos tais diferenças, em todos os sentidos. Talvez nos falte um pouco de pragmatismo.  Relembro do tempo em que tais idéias não habitavam de modo tão insistente meus pensamentos. A paisagem do início da viagem não é a mesma de seu final, mesmo que estejamos on board de aeroporto para aeroporto. Talvez seja esta a grande vantagem de aprender a viajar: a observação mais atenta da paisagem.

Hoje leio mais do que lia antes, hoje viajo mais do que viajava antes, hoje ganho mais do que ganhava antes, hoje tenho experiências e histórias interessantes para contar. Prime facie, assisti a queda do muro de Berlim, vi o homem chegar à Lua, assisti a URSS virar Rússia, presenciei o Brasil ser pentacampeão de futebol, vi um ex metalúrgico ser eleito Presidente da República, vi casamentos se assumirem e consumirem, assisti a dezenas de enterros, sofri muito, progredi, entrei em uma faculdade aos quarenta e seis, vi o passagem do século, assisti aos Festivais da Canção, presenciei o nascimento da TV a cores, vi as batalhas mortais do Oriente Médio, curti música (aquela outra, a verdadeira música), ajudei a criar meus filhos, plantei árvores, fui à praia, ri, até fiquei meio de porre de vez em quando e posso ingressar e sair de qualquer ambiente sem criar qualquer mal-estar simplesmente com a minha presença.

Fui colecionando desilusões, conclui que acredito muito na experiência e na expectativa do amor, assisti à transição entre uma escola com outros parâmetros distintos do de hoje. Com cinquenta e seis posso dizer que, de certo modo, aprendi a conhecer algumas coisas. Adoro o ditado ladino que diz que mais sabe o diabo por ser velho do que por ser diabo.

Hoje me irrito mais facilmente com idiotices, hoje consigo conviver melhor com meus demônios externos e internos, escrevo, escrevo, escrevo. Cada escrita é como se fosse uma tatuagem gravada na minha mente. Não penso em ter novamente vinte anos. Não sofro em razão do que não vivi, apenas me decepciono, muitas vezes comigo mesmo, às vezes com outros.

Não sou um rebelde convicto, não penso que possa mudar tudo. Melhor me concentrar em mudar o que possa, e isso, absolutamente, não é tudo. Sou respeitado pelos meus pares e as pessoas razoavelmente educadas me chamam de senhor. É um novo tratamento, senhor, que eu acho interessante. Alguns me chamam de velho, normalmente os deseducados, os ingenuos. Sou um senhor, sim, a quem interessar possa.

(1) FIM DO EMPREGO, O, Jeromy Rifkin, M. Books Editora

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