As sombras

As sombras destas noites de inverno são diferentes das que sempre vi. O vento fustiga, geme, grita, e o frio praticamente me empurra para a cama. A casa se dobra a ruídos estranhos, que lembram animais escavando paredes e andando sob o tetos da casa; aqui e ali pregos deixam de ser silentes, enquanto o madeirame, de repente estala. Tudo o mais é silêncio. Acomodo-me na cama, e – penso – nem todos os cobertores e edredons do mundo seriam suficientes para me aquecer.

Depois de algum tempo, foco minha atenção na porta do banheiro, parcialmente aberta e cuja luz deixei acesa, enquanto escuto o vento. Parece existir uma névoa dentro de casa; de vez em quanto o ar seco combinado com o frio pode ser impressionante. Busco ser racional, pelo menos por agora. Quero evitar que a solidão me tome o peito, aumentando minha desolação. O frio permanece, e um sentimento de abandono me põe em desconforto.

Estou aqui, me aquecendo, e o torpor do sono me acorre. Quando fico assim, modorrento, a sensação é de me abandonar. É então que, novamente a vejo: a sombra negra que rapidamente atravessa a nesga de luz do banheiro. Meu coração se assalta, e é assim que a vejo, mais com os olhos da mente do que com uma completa integridade de visão. Lá está ela: intensamente negra, deslizante, de um negro que me parece mesmo sólido, e que gela o sangue. Escuto, ainda, um ruído, um rascar que me lembra ossos se partindo, e me encolho mais ainda, totalmente atormentado e em pânico.

O interruptor da luz está aqui, ao alcance da minha mão, mas parece infinitamente distante. Não consigo mover meu braço para acender a luz. A adrenalina se espalha pelo meu corpo como uma lâmina de água escorrendo no plano. Estou assim, quieto, olhos totalmente abertos agora. O medo me oprime o peito. É quando, do banheiro, escuto o chuveiro sendo ligado. Alguma coisa está ali dentro. O calor do edredon me envolve, e eu me sinto como que afogando em meu próprio suor. Posso sentir meu coração quase que explodindo, quando olho para o banheiro e várias sombras negras se deslocam em minha direção. Quase tão reais quanto apavoradoras. Na mão de uma delas algo faísca. Um punhal! Cerro os olhos e, desesperadamente, sinto que o sono me engolirá. Para sempre.

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