Assim, flutuo

 
Não foram poucas as vezes em que o tempo escorreu entre os meus dedos, em que a vontade não foi suficientemente grande para que eu pudesse enfrentar aquilo que me afrontava. Reconheço agora, com o passar das oportunidades, o que em minha vida se fez poeira, o que declinou em mim, inclusive posso ter a nitidez de que, embora em meio a muitos, cada vez mais eles diminuem, findam por se ausentar. No final da minha vida estarei só, da mesma maneira em que ingressei no mundo. Minha morte será então um exercício de descoberta. Por ora, aferro-me à vida, como quem se nutre de sua própria necessidade. Importa viver, importa fazer, e, dizem alguns, minha vida é valiosa.

Caí muitas vezes no conto ácido e espesso da paixão, e dela, francamente, até hoje não me desencantei, pois muitos dos prazeres que tive tiveram ali a sua origem. Paixão pela paixão, pelo desejo puro e simples, mas com o decorrer dos anos, percebi que sorrisos de amigos sumiram, simplesmente porque eles, os amigos, igualmente o fizeram. Me dei conta do que os outros esperavam que eu fizesse, como queriam que eu me comportasse, como desejariam que houvesse um padrão muito nítido no que faria ou deixaria de fazer e, por outro lado, como os contrariei, como os deixei insatisfeitos. Decorrências da própria paixão, por um lado, e da inadequação por outro.

Lutei muito, mas não venci, pelo menos até hoje, a expectativa daqueles que me amam, pois as exigências são de diversas ordens, e eu não dou conta delas. Sou crítico, abusivo, por vezes destemperado, mas me ponho ao par dos meus conflitos. Talvez me amem apaixonadamente ou me odeiem com um certo lustro de raiva mal disfarçada pela educação.

Sou um ponto flutuante, não tenho as características das certezas absolutas, e nem sou dono de convicções irretorquíveis. Simplesmente flutuo, mas as vezes o peso de tudo me faz tão denso que desabo, que não há força que me mova, que me altere o ritmo de lassidão. Não tenho medo do futuro, não renego o que passei, sequer de admitir meus incontáveis erros. Disse Sêneca que é impossível nadarmos duas vezes no mesmo rio, fato que a física quantica confirmaria séculos depois.

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