Gol!

A bola foi alçada por sobre a área, vinda de um cruzamento da ponta esquerda. Perfeita, a parábola encontrou a energia e o ponto exato da cabeçada de Martim, e o gol estava feito.

Ela, a parábola, a matemática perfeita, um elemento sincronizado com a corrida do centroavante, o momento em que o jogador se impulsiona no ar, um instante de comoção em que tudo fica momentaneamente paralisado, aguardando o desfecho, a cabeçada orientada no sentido do gol, o lançamento que preparou a parábola, a certeza do cabeceio para que a bola ultrapasse a linha de gol, tudo isso é visto, acompanhado, observado por milhares de pessoas no estádio. Olhos costuram o momento em que o lateral alça a bola na área, olhos que imitam detectores de movimentos suaves e bem elaborados, mentes que antecipam o prazer da vitória, da glória, do gol. Nada que se compare a isso, nada que seja a tal momento paralelo.

Gol! Gol! Gol! Gol! E assim infinitamente Gol!

Houve uma explosão de alegria no estádio, e parecia que tudo tinha adquirido novas cores. Matar o adversário com um gol aos quarenta e três do segundo tempo era absolutamente diferente de iniciar uma partida já ganhando. A onda de contentamento, de pulos, de gritos, de histeria coletiva espalhou-se. Eu estava lá assistindo, e fui um daqueles que disse palavrões, que berrou, que abraçou-se a quem estava do meu lado. De repente, em um átimo, todos somos iguais, o advogado, o pintor, o executivo, o professor, o pescador, o motorista, as pessoas gordas, bonitas, feias, altas, magras, tudo e nada importa, a não ser o momento mágico de comemorar, de gritar ao mundo o seu orgulho, a sua satisfação, pouco importando o que irá acontecer depois, na vida de cada um dos torcedores. O gol é o momento mágico, e vê-lo, algo que transcende a todas as outras análises da vida regrada, séria, comportada, obrigacional, aquela outra perspectiva que requer reuniões, horários, roupas apropriadas, sínteses, jogos de poder, políticas de alto nível ou de alta pataca.

“Dane-se!” é o que diz o gol vencedor para o resto das vidas chinfrins, acossadas, limitadas em amores, em dinheiro, em compensações e frustrações. É o momento em que o guerreiro, finalmente, sacrifica o seu rival, em que os amantes mais se deliciam e se enroscam, é o instante em que o grito pode dar-se como primal.

Jogos de futebol, ao contrário do que costumamos dizer, não são batalhas, não são guerras, ou se lembram tais eventos, tudo fica no campo da metáfora que, contudo, é interessante, é uma emulação maravilhosa. São onze guerreiros contra os outros, e aqueles são os do timinho, os que estão lá afrontando a nossa capacidade de derrotá-los e, portanto, se expondo aos nossos xingamentos.

Eles, os inimigos querem invadir nossa casa, como estranhos que são. Times adversários são aqueles que querem que não sejamos campeões, que não sejamos os melhores e, portanto, temos o direito de mostrar-lhes que, em nossa casa, mandamos nós.

E se perdermos, bem, são coisas da vida, são as irritantes visitas impróprias, são os mal temperados caprichos do destino, enfim, podemos até achar que o outro time realmente jogou melhor, mas isso só nos faz retornar para uma nova demonstração de que, querendo ou não, os outros são os outros, e nós, os melhores.

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