A luz

Um dos efeitos do crescimento físico é aproximar as conversas, em razão das experiências e dos conhecimentos que vamos alcançando ao longo da vida. Quem era apenas uma madrinha ou uma tia talvez até um pouco distante, passa a ser uma amiga, uma confidente, um porto onde podemos ancorar nossas velas. Irmãos que durante anos antes se digladiavam passam a conviver melhor, a se olharem um para o outro dentro de uma situação de respeitosa igualdade.

Verdade, nem sempre isso acontece, e arrastamos pela vida adulta as mazelas que acumulamos durante as nossas subsequentes infâncias; então as relações já se definiram previamente durante os tempos infindos que o tempo nos concede. O tempo reparte a si próprio, e nos repartimos com ele. Muitas vezes fica difícil mudarmos o que ajudamos a concretar, os muros nos quais nos protegemos são altos demais para que possamos enxergar o que está do outro lado e legitimamos em nós mesmos a superfície do usual, do comum, do esperável.

De todo modo, existe sempre uma aproximação mais real de um discurso, de um modo de entendermos o mundo não como algo que fica imerso em nosso umbigo, mas do tamanho que ele realmente é: por vezes incomensuravelmente grande e não raro, igualmente pequeno mas, sem dúvida, sempre denso de sentimentos, de afetos, de negativas e de alegrias. Assim, vamos tendo relações no mundo que não mais se definem tendo como matriz a família, mesmo porque pessoas as perdem, são pelas mesmas abandonadas ou às vezes às abandonam, por livre entendimento.

No final de tudo, vamos andando por aí, tecendo caminhos incertos, criando atalhos, evitando armadilhas de modo mais eficiente ou não, decidindo quais as estradas que iremos seguir, em que fontes mataremos as nossas sempre imperiosas sedes. Os meninos e as meninas crescerão e passarão a entender melhor seus pais e suas atitudes, desde que os pais tenham sido pais e tenham permitido que seus filhos crescessem, que saíssem pela porta para o sol, para a sombra, para as chuvas, para os suores, para suas lutas, segredos e desilusões.

Caminhamos todos assim até que, um pouco mais adiante, no qual pareceremos apenas um pouco mais do que lembranças, andaremos por alguma trilha absolutamente desconhecida e que nos surpreenderá com uma passagem de luz. Até lá, seremos arrogantes, compreensivos, pacíficos, agressivos, solidários, amantes, indiferentes, ativos, compassivos, enérgicos, corajosos e covardes; matreiros, maliciosos, sem compostura, aldeões e mochileiros, guerreiros, individualistas e, por vezes, canalhas; até lá seremos árvores, matos, rios, pedras, paus e solidões.

Somente a luz nos dirá, e adiante dela, que somos almas, infinitos espíritos prontos, para, finalmente, aprendermos a amar. HILTON BESNOS

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s