Arquitetura futurista

Escrevi em 19 novembro 2006

Uma cerveja, um copo, um bar, talvez mesmo um pouco de vodca, ou uma esfia que infiltrou-se na conversa como um copo de bitter… Nada, não pensemos tanto, que as tardes do verão serão devoradas pelo Deus Tempo, em volúpia de desatinos contados em minutos, em nanossegundos.

Os dias passarão de uma forma leve, quase etérea, e o verão nada mais quer que isso, se temos de trabalhar, de suar nossa indistinta vontade, então que seja por um motivo leve.

O verão exige leveza, enquanto o inverno quer a produção. O verão é pós-moderno, o inverno é industrial ainda, coitadinho… Espremidos entre o sol e o frio, melhor que tenhamos um pouco de sol, para iluminar nosso descanso.
É o caso em que não conheço tua cidade, não tenho ideia do sotaque dos seus habitantes, e apenas presumo ruas e vielas que nem em sonhos eu vi, parafraseando O mapa da cidade, de Mário Quintana. Então, lá estou eu de novo pensando na possibilidade de haverem lampiões na tua cidade e pássaros que nos finais de tarde voem libertos e felizes.

O que sei daí, a não ser que chegarei no verão, como se fosse um vento repentinamente sobressaltado que espanta a modorra e o sono e sobe vertiginoso aos céus, espalhando os polens dos amores teus?

E mesmo assim eu quero vê-las, às ruas, às avenidas e aos trechos de tuas passagens. Feliz cidade feminina, lasciva bacante e romanticamente romana à luz das sombras dos teus verões… Que há na tua cidade? Talvez uma Pampulha, um Cristo que já foi tema de samba enredo, tapado pela lubricidade indecente dos guardiões da justiça, mais que cega, anacrônica… que mais, que mais teria tua cidade a diferenciar-se e oferecer-se como consumo aos cidadãos nervosos?

Talvez uma visão de arquitetura futurista, mas não a de Gaudí, que esse Antonio está em Barcelona, cidade dos catalães… Não, mas há uma beleza imensa na tua cidade, e ela não provem sequer da Casa del Pueblo, mas, sim, da energia dos que contigo habitam, e que se não são cidadãos, também não são alfabetizados, não por ignorância, mas por vontade do dono da senzala…

Há na cidade o som da tua harmonia, a leveza dos teus andares, a construção contínua dos teus amanheceres e um círculo que te protege das minhas indecências e dos meus descréditos… não, não estou perto da tua casa, ao teu lar, ao teu refúgio de prazer, pois aqui me encontro como uma esperança depositada em minhas próprias tessituras de ilusões… longe, sim, estou longe para que possas trazer em tua alma apenas a lembrança esvaída de alguém que não tocou sequer nos teus ombros…eis aqui a minha árvore, e quedo-me sobre a mesma como uma ave que busca as nuvens do Condor, mas que alcança tão-só a praia das gaivotas…

Deixa, pois, que eu cante não as questões delicadas e sensíveis das ausências ou das esperanças incontidas dentro das sombras e das luzes, mas que aprecie, sim, desta copa de árvore, o continuum ensandecido de uma busca que perdeu-se, ali mesmo, bem na esquina, como um sonho de moleque…

Ai, cidades, há de haver uma em tua alma, um encanto que soprou em minhas porto alegrenses tardes de desvãos…há de haver também uma Veneza-Gôndola e um resto de noite com uma soberana lua para que eu possa estar envolvido em teus braços, esquecido de tudo quanto de mais exista, a não ser do teu perfume e dos teus seios amantes e docemente encandecidos pelos teus sentimentos… ali, ali está como se fora um trecho a mais das minhas vísceras, de minhas vontades mais expressivas à luz da tua cidade, seu movimento, seu burburinho, seu sol e suas tardes de verão.

Quero embriagar-me dos teus cheiros, cidade maravilhosa, onde se dobra uma esquina e se ouve o som de um saxofone, o riso de uma senhora já anciã, mais uma fímbria de saudade que um bocado de esperança; enrubescer-me de tuas cantigas e de uma polifonia de ruídos…

Então agora me calo, pois que talvez tenha despertado tantas ironias ou malquerenças que seja hora de partir, de recolher-me aos meus esconsos ou aos desconsolos pelos quais passarei, como se fora um desafortunado comentarista burlesco em que se apagou, no último minuto, a predição de rir, pois que da mesma restou, incólume, apenas o som da tua boca.

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