Hoje vi uma mulher

Escrito em 17-04-2005

Hoje vi uma mulher, se é que se pode chamá-la de mulher; não já não era uma mulher, não dessas que a gente acha bonita, ou feia, ou desinteressante, ou das que carregam o mundo e as obrigações nas costas, como se tudo fosse um fardo enorme entranhado em suas próprias vísceras, obscenidades que se acumulam sobre os ombros delas, das senhoras, das eleitas para terem os filhos, para lhes cuidarem da educação, para lhe molestarem a paciência, porque mães muitas vezes desconhecem sequer os espelhos que mostram-lhes os filhos já grandes já desejando outras mulheres, menos maternais; mas, bem, então o que eu vi, se não era uma dessas mulheres a quem tanto amei, desejei ou fiquei indiferente, o que era então?

Era algo, que apenas tinha a forma de uma mulher, a forma indistinta de uma mulher, seus cabelos, suas alturas, suas ancas e seus formatos de seios; contudo, essa criatura trajava vestes imundas, trapos que mais ainda maceravam qualquer possibilidade de que fosse uma mulher, fantasias dramaticamente expondo sua miserabilidade maior, sua exposição de tristeza, sua desesperança completa em tudo em todos, inclusive em Deus, aquele grande bosta, aquele anjo vingador que havia roubado, furtado àquela toda e qualquer esperança e a mínima vontade ou possibilidade de ser feliz; e lá ia ela, a louca, a desvairada, a impura, a monte-de-trapos, mais uma das vacas que adejam nos campos de esterco com os quais uma boa parte das cidades-grandes são constituídas.Essa mulher, essa coisa, esse ser desprovido de sanidade, de humildade, de compostura, de bom caráter, de savoir faire, essa biltre, cadelinha barata, contudo ainda uma mulher, pois gritava em língua portuguesa impropérios de baixo, médio e grandes calões, trazia em sua mão direita um pedaço enorme de pau, e ia assim, a obscena, segurando aquele pau enquanto as pessoas passavam e se afastavam, e enquanto a chusma de machos dizia gracinhas e ria do andar inusitado daquela pessoa; então ela, passando por uma carreira de automóveis que estavam estacionados sob a calçada gritou algumas palavras que não entendi, e bateu com aquele pau no capô de um dos carros, de um dos belíssimos carros, este era da cor azul-marinho e ela bateu duas vezes no capô com toda a força que seus nervos ainda podiam suportar, e dizendo palavrões e vomitando obscenidades continuou andando como se nada tivesse acontecido.

Ali, ninguém a viu fazer aquilo, porque ocorreu um daqueles momentos mágicos e apenas eu pude ver o que ocorreu. No entanto eu sequer reagi, porque aquilo era bem mais do que eu tinha observado, porque ali estava mais do que o escrito, mais do que o explícito, ali estava a bestialidade, a revolta, a coragem suicida de quem nada tem a perder, ou ganhar, ou comer ou mesmo raciocinar. E o meu espanto inicial pela cena passou então a ser nada mais do que compaixão e profunda pena.

Não por ela, por nós.

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