Neblina

 

Março 2007

Quando cantei de modo tão apaixonado e ela não notou minimamente o que queria dizer a letra da música, muito menos que eu cantava especialmente para ela, realmente me decepcionei e naquele instante, se pudesse, teria engolido a música inteira, de arrependido. Não há nada pior para quem ama do que passar a ser um nada para o ser amado. Não é a rotina nem a raiva, nem a ira que matam o amor, mas a indiferença plena. Quando senti essa enorme sensação de vazio, que era tempo perdido, me encontrei mais abatido e confuso. Como amar daquele jeito, meu Deus, seria uma sina, seria uma brincadeira do destino e justamente comigo, que sempre tive uma agenda de sinceridade à toda prova, e que mesmo quando traía, o fazia com cuidado e discrição, para que nada fosse notado, com medo de perturbar a ordem normal das coisas?

Mas era a realidade, ela estava ali somente com seu corpo, mas sequer me olhava.

Embasbacado, desliguei não só o karaokê, mas me afundei no meio da festa, procurando estar o mais longe dela quanto possível. Quando tudo terminou, foi só o tempo de apanhar o carro e rumar para o meu apartamento, onde, solitário mas amigo, o travesseiro me esperava. No outro dia ainda teria de trabalhar e o sonho de tê-la comigo parecia se evaporar como a neblina que caía sobre a cidade e, especialmente, sobre a minha alma.

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