Cansaço

Há momentos em que você cansa de falar, de argumentar, de tentar provar as suas teses. O interlocutor não quer ouvir ou se coloca em uma posição sistemática de obstrução, quando não de confronto. Por mais evidente que seja o que você diga, tudo ao outro soa como estranho, exótico, intraduzível, como se estivéssemos falando a respeito das leis de probabilidades de Heinsemberg ou de algum intrincado cálculo diferencial. Ou sobre metafísica.

Esqueça, você simplesmente não quer ser escutado, porque a dor causada pelas suas palavras e pelo simples bom senso pode ser dilacerante. Para tudo que você diz, parece necessário um decodificador. Ora, não o escutam por ignorância ou por evidente malícia, talvez mesmo pela abjeta combinação de ambas. Pode jogar o decodificador no lixo, porque não é ele que não está funcionando direito.

Observando os néscios, os medíocres, os ignorantes e os galardoados imbecis, aprendemos a ser mais reflexivos, mais honestos conosco e com os outros.  Vemos claramente o que vale e o que não vale a pena ser discutido.  O que dita tal juízo não é a conveniência, mas o conhecimento do humano ante as armadilhas dos pretensos poderes, das instabilidades emocionais e da vaidade exacerbada, que não raramente se transforma em arrogância. Por outro lado, a contemplação da estupidez e da intolerância nos ensina, e muito. De certo modo, nos depuramos, como se tomássemos  um banho reconfortante, por não sermos o que outros são e, especialmente, por não nos portarmos do modo como outros se portam.

Para Lacan, somos referenciados pelo Outro, esse grande Sujeito que nos é básico para que nos reconstruamos e possamos ter uma idéia mais clara sobre como nos constituímos enquanto seres identitários. O outro nos questiona: como agiríamos em tal ou qual situação, o que faríamos, qual seria o nosso procedimento, quais seriam as nossas escolhas? Não raro nos desapontamos, e a maturidade nos alcança quando aprendemos a transigir, a negociar, especialmente a arte da renúncia. Aprendemos inclusive a saber quando estamos ou quando não estamos perdendo nosso tempo, fruto de nossas experiências. Acho que estou precisando escutá-las.

Afinal, como se diz por aqui, não vale a pena gastar pólvora em chimango morto. EM 2010

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