Castelos

2005-04-04

É, acho que talvez ali, um pouco mais acima, parece que sim, foi ali que eu vi, há muitos anos atrás um castelo; não, não, faz muito tempo, e eu posso garantir que eu não tinha sequer doze anos… No entanto não poderia ter esquecido, porque eu não tinhasequer noção do que era um castelo, no máximo tinha visto alguns em desenhos, e embora fossem bonitos sempre eram desenhos, não era nada real; mas aquele não, era verdadeiro, simplesmente estava ali.

Parti então para avisar a todos na cidade que no meio da névoa do mês de maio eu havia visto um castelo. Corri, descendo os caminhos entre os matos, e quando não podia correr, andava o mais rápido possível, até que pudesse divisar a cidadezinha onde nascera, algumas milhas abaixo…

Finalmente quando cheguei lá, nem o verdureiro acreditou na minha história. Eu falava com pessoas que me conheciam há um bom tempo, e que tinham me visto nascer, e ninguém, nenhuma delas acreditava que houvesse realmente um castelo. Ou diziam que eu tinha sonhado, ou que estava brincando ou, sem paciência, simplesmente me chamavam de mentiroso.

Então, por causa da reação das pessoas eu fui desanimando de contar, fui perdendo a vontade… No fundo era uma mágoa muito grande, porque o meu castelo de certa forma revelara que muitos a quem eu estimava não me consideravam mais que considerariam um mentiroso qualquer; foi então que eu achei que o castelo era realmente meu, pois havia me ensinado algo importante não sobre eu, mas sobre os outros…

Mal raiou o dia seguinte e lá estava, e assim fui me habituando a vê-lo, sempre de longe. Quando havia muita luz, resplandecia como um raio de sol, como um prisma de azul celeste. Um dia, porém, parti, mudei-me de cidade e nunca mais pude ver o castelo. Durante toda a minha vida ele acompanhou-me, como uma sedução, como um presságio, como um pedaço da minha própria carne…

E agora, após ter vivido tanto, após ter amado tanto, ter decepcionado pessoas, ter sido um herói e por vezes um vilão, sinais me apontam que é o momento de habitar uma nova morada, onde meu corpo alquebrado e minhas dores possam consolidar-se em uma nova vida, em uma dimensão diferente. Àquilo que chamam morte, o castelo mostrou-me ser um novo caminho, uma passagem e a minha energia agora flui em outro diapasão, como se desorientasse meu próprio sentido, na busca de novas referências e distintos padrões…

Finalmente, queiram ou não, acreditem ou não, sei que vou encontrar meu castelo, e se ele sempre esteve em meus sonhos e minhas penúrias, agora, sem dúvida agasalhará, como um colo materno, as fibrilações da minha alma e os contentamentos das minhas imaterialidades.

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