Pudores e ignorância

 

Está bem. Vamos escrever a respeito do pudor, que é uma palavrinha complicada, porque normalmente associada a uma outra, fortemente carregada: moralismo. Aliás, esse é o primeiro erro. O moralismo é a manipulação ideológica da moral. Para sermos morais, não precisamos ser moralistas. Aliás, nem deveríamos. Um sujeito moralista nem sempre é um sujeito moral, do mesmo modo que um sujeito irônico nem sempre é um sujeito bem-humorado. Contrariamente, se o humor exige o compartilhamento, a ironia exige o distanciar-se do outro.

Melhor seria se associássemos o pudor ao recato. Quem tem pudor, resguarda-se a si próprio, expõe-se menos aos outros, tem uma probabilidade menor de ser constrangido por terceiros. O pudor não evita o terceiro, nem impede que as pessoas se conheçam e compartilhem sonhos, sentimentos, vontades e objetivos; apenas diz para cada uma delas que existe uma individualidade que deve ser preservada, que existe uma esfera de intimidade da qual não se deveria abrir mão, especialmente no que convencionamos chamar de “amizades sociais” ou “amizades profissionais”.

Quando o pudor, que é em tudo uma virtude, uma qualidade moral, se radicaliza, se extrema, vira uma trava, uma expiação, uma tempestade de culpa judaico-cristã. Ter vergonha de si mesmo não é ter pudor, mas exercitar a auto-comiseração e, não raro, acreditar que flagelar-se é alguma espécie de prática religiosa recomendável.

Muitas vezes o pudor não se manifesta unicamente através do cobrir o corpo ou de resguardar a intimidade, mas de outras maneiras mais sutis. Intelectualmente, por exemplo. Pessoas menos propensas ao uso da inteligência deveriam ter um mínimo de razoabilidade, uma luz de pudor ao emitirem opiniões. O senso-comum, por exemplo, não tem pudor: ele simplesmente está ali para ser usado. A falta de conhecimento e uma leitura rasteira da realidade e das relações sociais, capitaneada normalmente pelo reducionismo, alimenta a falta de pudor intelectual. Dizer uma enorme besteira pode ser engraçado, mas pretender que pessoas levem a sério uma falta de perspectiva oceânica, é dar-se ao exercício do ridículo. E o pudor não suporta o ridículo. De todo modo, sem resvalar para a auto-censura prévia e engessante, cabe muito ter um certo pudor intelectual.

Muitas vezes, ao escutar alguns tipos de argumentação rasteira a respeito de assuntos de relativo peso na vida de cada um de nós, penso: “Meu Deus, como posso estar ouvindo isso?” Não se trata, aqui, de simplesmente alguém emitir uma opinião ou um entencimento distinto do meu, mas de uma  simplificação grosseira da realidade, temperada com os ingredientes que tornam um argumento um genuíno exercício de estupidez. Normalmente os imbecis não tem pudor; simplesmente selecionam um tema de seu interesse e o caramelizam com potes de senso comum; depois o servem, independentemente do gosto que possa ter.

Assim, os tolos se desnudam e, não raro passam um testemunho infeliz de que não entendem um mundo que, querendo ou não, absolutamente não se conforma às simplicidades com as quais o pensam. Em tal constrangedora situação patenteiam seu despudor e seu desrespeiro com a inteligência alheia. Seu único parâmetro é normalmente o senso comum. O despudorado intelectual é, no mais das vezes, um desinformado que insiste em passar por informado.

Tenho tido a infame oportunidade de compartilhar, sem querer, de muita asnice, e por vezes me sinto como se mãos e argumentos tentassem mergulhar-me até o pescoço no senso comum, mas não me conformo com isso. Sempre emergi na hora correta.

Cansei de confrontar bobagens. Simplesmente as ignoro, na esperança de que o incauto que as proferiu tente se aprofundar um pouco mais no assunto que explorou de modo tão temerário e inconseqüente. O despudorado, contudo, muito provavelmente rí de meus pensamentos e reflexões: sou para ele tão estranho quando um quadro de Matisse em uma rave. Nesses casos, sempre preferi ser o fator de desvio do que o de conveniência. Com cinquenta e dois anos talvez esteja de certo modo nutrindo mais um sentimento de repulsa à ignorância do que de bonomia com o absurdo.

Talvez por isso pense que seja o pudor uma virtude: seu exercício diário não é apenas um bálsamo mas, sem dúvida, um atestado inequívoco de inteligência e de sagacidade.

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