Deus proverá

Precisávamos de um serviço para nossa casa, e fomos providenciá-lo. Ali o próprio dono nos deu uma lição de como não se deve tratar um possível cliente. Praticamente nos dispensou sem qualquer iniciativa para resolver nosso problema. Tratava-se de uma estofaria, mas nada foi resolvido. Saímos desapontados e aborrecidos, mas lemos, acima do nome da estofaria, uma placa quase em garatujos que dizia: “DEUS PROVERÁ.”

Ora, “DEUS PROVERÁ” não significa passividade. Somos criadores de obras (Hanah Arent) e responsáveis por nossos atos e/ou omissões. Assumirmos extremadamente nossa auto-leniencia nos levará ao sacrifício final. No entanto, esse “DEUS PROVERÁ” nada tem a ver com uma crença irrestrita ao divino, mas sim submissão ao que  institucionalmente poderá prover mas que, ao fazê-lo poderá igualmente limitar o beneficiado em suas ações.

Aceita-se a limitação, pois a mesma é condição sine qua non da submissão e isso não é exatamente o que chamemos de fé. Ao submisso não importa nem exatamente o quando de benefício receberá, mas sim a sensação psicológica de que está sendo compensado pela sua situação de miserabilidade. Logo, terá uma contrapartida, senão oficial, oficiosa que poderá vir através de dinheiro, de bônus, de acesso a determinados serviços, a descontos, enfim, uma  benefício qualquer.

Alimentar esse sistema de inércia é permanecer na própria alienação subserviente e sem criticidade alguma. Tais características, dependendo do provedor, pode ser reforçada, seja pelo governo, seja pela religião ou por alguma instituição não governamental. O submisso espera, por sentir-se injustiçado, que a sociedade o proteja e lhe alcance recursos.

O beneficiado aceita sem problemas ou constrangimentos sua subordinação, pois à mesma se habituou, convivendo perfeitamente com o sentido único de possuir direitos sem ter contrapartidas em suas correspondentes obrigações sociais, pois deve ser suportado por todos, erga omnes. Renuncia, pois, mesmo a sair dessa abjeta zona de limbo à qual se enclausurou, pois entende que alguém ou algo tem a obrigação de provê-lo. Infelizmente, Hannah Arent está correta.

HILTON BESNOS

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