O ungido

O auto-declarado

O autodeclarado semi-profeta, semiungido e/ou semi qualquer outra coisa, desde que se confundisse ou se pudesse confundir com um caráter divino, gritava, exacerbado, em meio à congregação atenta, que venerava o que imaginava, o que era pela mesma construída mentalmente e ali era mais do que uma peroração sobre deus e o diabo, senão que um combate no qual ambos se debatiam e cujo final era previamente sabido e consabido e era e seria eternamente deus o vencedor e eles, os congressistas que a tudo assistiam e oravam e compungidamente expiavam a si mesmos e às suas diatribes, os que em tudo se espantavam, se assaltavam, se atormentavam.

Enquanto tanto ocorria, aproveitava o autodeclarado para dizer dos casos e dos milagres e das exortações e dos pecados que lia diretamente da Bíblia, do Novo Testamento, e para tanto ia ali consultando trechos, versículos, capítulos, passagens, que testemunhavam a vinda e a vida do filho de deus para aqueles cristãos, e lá se ia perorando e agora transmitia a própria palavra de cristo, a palavra do mistério, enfim, o que dissera deus, o que revelara cristo, e o fazia com uma fluência e uma paixão tão absurdamente descabida e exacerbada que qualquer druida saberia que toda aquela gritaria, que todos aqueles verbos, adjetivos, ameaças, choros, e em especial os gestos, ah os gestos!, eram apenas o reflexo de um ensaio, de uma peça histriônica.

Tivessem tido lugar naquele circus romanus, naquela pantomima, naquele jogo de máscaras, pensariam os mesmos tratar-se de uma grande comédia, que serviria tão-só para entreter tolos, mas em seguida lhes viria a tristeza e a plena lástima daqueles que não só lotavam o congresso, como por igual aguardavam o momento em que o diabo, o satã, o demônio, o esquerdo, o inominável seria derrotado in verbis para explodir todos em um espasmo convulsivo, em aplausos, em “ohs!” arredondados, gratificados e gratificantes e em imaturas manifestações como o faziam as crianças quando recebiam os agrados de um presente há muito esperado.

Então os druidas partiram, envoltos em um mar de triste perplexidade, e mais não teriam a fazer, pois que senão o grotesco lhes perseguiria como larvas incandescentes. Finalmente, e dali a pouco, não mais que o tempo de uma hora, disse o ungido pro tempore da vitória de deus sobre o diabo, e embora isso fosse tão absolutamente óbvio e recorrente, o que se seguiu foi o roteiro que teriam escrito, espantados e contrafeitos, aqueles sábios.

 Não se sabe até o momento o porque de tanta atroação, a não ser tivessem aqueles fiéis de ouvir a cada dia o mesmo tema em variações flexíveis e sedutoras, pois que, se criam no filho de deus como o diziam e trombeteavam seria em absoluto natural que entendessem que seria dele a palavra final contra seus indigitados ofensores, e isso devia ser tão claro que dispensaria a faina comum e diária.

Contudo, há uma separação entre o que se crê real e o que se institucionaliza e se fiéis por vezes descreem no que dizem crer, outros tenderão a vê-los como servos in extremis de uma crença se os virem cumprindo as falas, os rituais e as expiações impostas aos homens por outros homens, como o preclaro orador e demais institucionalizantes.

Não basta ser, mas devemos ter a aparência do que dizemos ser. Aliás, se a aparência for convincente, nem  precisamos ser, desde que os demais sejam iludidos pelo que dizemos ser. Em termos mais filosóficos, só existe moral quando, em não havendo quem nos aponte, critique ou elogie, tomamos a atitude correta mesmo sós, pois acreditamos nela.

Por lógico, somente aos ungidos, no uso de suas melhores habilidades e capacidades transcendentes, cabe o poder temporal de orientar, pregar, colocar contrapesos, regras, freios, moralidade, ética àqueles desavisados fiéis, além de dizer mais, para qual caminho deverão os mesmos se orientar e seguir, sob quais pontes passar, sob quais portos atracar seus barcos, o que poderão ou não fazer ou omitir, quais eventos norteadores de suas vidas e todo o mais o farão pois somente eles, os ungidos, os oradores, poderão ler o que ninguém lê e glosar, interpretar de modo iluminado e especialmente único e irretorquível o que outros não entenderão de modo que aos primeiros acode, per tutti i per sempre, a exclusividade autorizadora para organizar e dar rumos no mais das vezes conservadores aos que creem no mistério da palavra divina. E, diga-se de passagem, não são poucos os que a ela se submetem, através da sempre zelosa intervenção dos ungidos.

Ainda de considerar-se que somente àqueles cumpre dizer o mistério da palavra, e, insistem eles nesse ponto, de tal modo que, informam e reclamam à si tal privilégio, não há outra crença, outra religião, outra manifestação transcendente que não objetive, segundo os mesmos nada além de conspurcar, macular, tornar risível e ridicularizar o que dizem ainda ser a palavra do filho de deus, e em tal floresta se embarafustaram, que o que não lhes é favorável, está em posição antagônica, perigosa, subversiva, odiosa. Somente aos mesmos cabe dizer o que o filho de deus disse, e se mais alguém ousar em discordar, mesmo em contrapor eventualmente, haverá uma guerra cristã a ser travada, como o fizeram os cruzados.

Morte aos mouros, é o que resta àqueles que indisciplinadamente não concebem a palavra do filho de deus como a única e inarredável.

Eu

Sou mais do que os outros, os que se arrogam fiéis, mas mentem e o fazem de modo tão constrangedor, tão falível e mísero que me causam ojeriza, nojo, tristeza, pois os seus atos não correspondem nem de longe e nem de mínimo, por mais piedosos que possamos ser, àquelas atitudes que fingem, mostrando-se altruístas, sinceros, quando erguem suas mãos aos céus e clamam, com as suas bocas eivadas de vícios, as migalhas do Senhor, sim, porque Ele, do qual não digo do nome, porque contrito me faço só de nele pensar, não pode alcançar aos mesmos nada mais do que traços mínimos de Sua atenção, e mesmo assim O fará porque é condescendente e não por merecimento daqueles.

Diferentes em tudo e por tudo do que penso e faço, eles, os ímpios se fantasiam e peroram e fingem se humilhar e oram tão sinceramente quanto as suas falsidades e os seus cinismos permitem operar, fazendo-o unicamente para pedir, requerer, solicitar, implorar, buscando mercanciar com Ele como se fosse um contrato negocial, um toma-lá-dá-cá, assemelhando-O a um vendedor de ilusões, a um ilusionista que pusesse fim às chagas desses cães e lhes fornecesse o que necessitam, e Lhes expiassem os pecados como se fossem tais infiéis o sal da Terra. O mais extraordinário de tudo isso, e aí reside a Sua Glória, é que mantenha em vida tais excrementos pretensamente humanos e não os faça arquejar em meio às suas hipocrisias, não os deixem sufocar ante suas odiosas falas e exclamações confusas.

Vem um e implora seja curado de seus males físicos e psíquicos, de suas gangrenas, de suas veias dilatadas, que, em tudo e por tudo são apenas consequências de uma vida improdutiva, prevaricadora e que se deixou alimentar por todos os vícios possíveis até chegar até o ponto em que está, pulando como um novilho que tão-só espera o momento de ser degolado. Ainda se junta àquele, ajoelhado, uma mulher, que, assim também se ajoelhando perora para alhear-se de seus vícios e perturbações, de uma vida má e infeliz, porque seu marido a deixou, porque o filho a abandonou e ela agora está ali, pedinte de carinho, de uma casa, de uma cama quente e de uma comida boa, mas nada tem de concreto de seus desejos (e se fosse apenas um homem bom talvez se satisfizesse, um homem, claro,  temente a Deus, é o que deixa subentendido a perdida) e por aí se sucedem sempre pedindo, pedindo, pedindo e sabemos todos os da congregação que, uma vez alcançado seus objetivos, poucos ali restarão para louvar o Seu Nome.

Ainda convergem para cá, para o Templo da Congregação Maior, aos bandos, aos magotes os que se sentem injustiçados, oprimidos, aviltados, falidos, degredados, famintos, extenuados, infelizes, os de má-sorte e destino cruel, os vítimas de desígnios e de amizades ruinosas, os desesperados, os desgraçados, os tristes e amargurados, os que tem nevralgias, os que tem doenças no corpo e na alma, sem que lhes acuda minimamente que também cometeram injustiças, que igualmente oprimiram, que aviltaram, que levaram à falência, que cometeram ou que deixaram cometer degradações, que negaram comida, água e pão, que trouxeram o cansaço e o desânimo a outros, que colaboraram para que tivessem esses outros infelizes a má-sorte, a desgraça e a ruína que agora esquecem, porque é em sua carne que a navalha da indiferença humana corta.

Vem todos eles para se juntar aos demais párias morais e sociais, que igualmente tem as vestes descompostas e as rugas que são testemunhas de uma vida em tudo afastada de Deus, mas que se entendem no direito de rogar e de suplicar por si mesmos e pelos demais, alguns mesmos em histeria e todos em uníssono querendo satisfazer os seus desejos e súplicas, purgando as suas existências doridas e insignificantes, e é somente esse o motivo pelo qual aqui acorrem e não outro, o do louvor ao Senhor, embora, deva aqui dizer, há alguns, normalmente mais jovens e inexperientes que realmente comparecem porque talvez lhes haja sucedido uma experiência transcendente, e é por eles que estou aqui e sou quem eu sou, para pinçá-los, um a um dessa massa ignorante e malévola, que aqui deposita suas moedas não para fundar a Grande Obra, mas para expiar suas próprias vicissitudes.

Pois que mais depositem, pois que mais joguem aqui seus metais, suas jóias, seus terrenos, suas casas, o leite das crianças que obtiveram sabe-se como, as suas rendas materiais pois sabem os mesmos que tantos recursos tão-só servem para aplacar-lhes minimamente seus espíritos atormentados e purgar seus imensos pecados até onde a desfaçatez e a hipocrisia não conseguiram corroer de todo.

Deles, não tenho piedade, pois que uma profunda indiferença me invade quando os vejo assim como estão, submissos, entregues como um bando de ovelhas que balem tão alto que meus ouvidos chegam, por vezes, a doer. Odeio suas lágrimas difamantes, seus gritos de desespero, suas conveniências moralmente indefensáveis. O meu papel, aqui, antes, é de trazer segurança espiritual e mundana na certeza da fé aos que efetivamente denominamos de Subidos. Eu aqui estou para trazer-lhe a energia necessária para prosseguirem a Grande Obra, e para afastar, do modo mais rápido possível, as ameaças que lhes possam cercar ou cercear. Eu os saúdo a eles, aos melhores que temos, aos que ainda irão chegar para alcançar o que, de bom grado obtiveram. Minha dedicação golpeia implacavelmente aos infiéis, aos aproveitadores, aos que creem por ocasião e por conveniência, aos que denominamos, entre nós, de cães. A eles confiro meu ódio alicerçado na Palavra do Senhor. Amados irmãos em fé, Subidos queridos, eu sou seu Protetor.

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