Lojas são alívio a curto prazo

Lojas são alívio a curto prazo, diz sociólogo Zigmunt Bauman

Em entrevista para Mente e Cérebro, o estudioso polonês fala sobre tédio, frustração e insatisfação

outubro de 2013
UOC_Universitat/Flickr

É difícil falar sobre características da contemporaneidade, das transformações culturais e do universo do consumo permeado por projeções e distorções sem citar o nome do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia. Com quase 60 livros publicados, 32 deles no Brasil, o pensador se tornou uma referência em dissertações, teses e reflexões nas variadas áreas das ciências humanas: há mais de uma década, a ideia de “liquidez” das relações, apresentada por ele, incorporou-se à linguagem de psicólogos, psicanalistas, educadores, filósofos e antropólogos. Em sua obra mais recente, A cultura no mundo líquido moderno (Zahar), com lançamento previsto para este mês, o pensador – que completa 88 anos dia 19 de novembro – retoma o tema das relações voláteis, detendo-se em perspectivas históricas da cultura.

Na entrevista a seguir, Bauman fala a respeito de frustrações, tédio e do que chama de “substitutos de satisfação”: “Viagens oferecem fuga e descanso momentâneo; no entanto, por mais que nos aventuremos pelo mundo das compras ou façamos viagens exóticas, aquilo que procuramos continuará ausente”. Confira:

Mente e Cérebro: Hoje em dia, com tantos recursos tecnológicos, podemos fazer mais coisas em menos tempo, mas o mundo enfrenta uma epidemia sem precedentes de estresse e depressão. Parece que certas conquistas tecnológicas não nos deixaram necessariamente mais felizes.

Zigmunt Bauman: É verdade que podemos fazer mais em menos tempo. O problema é quão efetivas são nossas ações… Estresse e depressão decorrem da experiência generalizada de infelicidade e desesperança, o que nos relembra da comprovada (ou pelo menos suspeita) ineficácia de nossas ações. A maioria de nós se sente ignorante ou impotente a respeito do que o futuro reserva e, mesmo se soubéssemos que uma catástrofe se aproxima, poderíamos fazer muito pouco ou nada para evitar sua chegada. A inadequação de recursos diante dos impressionantes desafios e das grandiosas tarefas que enfrentamos é o que mais nos assombra e atormenta. Faltam-nos meios de ações conjuntas capazes de conter perigos coletivos. Como disse Ulrich Beck (sociólogo e psicólogo alemão, autor do conceito de “sociedade do risco”), atualmente temos buscado soluções individuais para problemas produzidos coletivamente – uma demanda superior às habilidades e aos recursos que a maioria de nós possui.

MeC: Em seus últimos livros o senhor tem feito reflexões sobre juventude e educação. De que maneira pais, professores e terapeutas podem ajudar as novas gerações a se afastar da banalidade do consumismo, das soluções individuais e buscar formas mais autênticas e criativas de lidar com conflitos?

ZB: Afastar-se da percepção de mundo consumista e desse tipo de atitude individualista contra o mundo e as pessoas (uma postura que, aliás, somos incitados, seduzidos ou forçados a assumir) não é uma questão a ponderar, mas uma obrigação determinada pelos limites de sustentabilidade desse modelo da vida que pressupõe a infinidade de crescimento econômico (em outras palavras, a redução cada vez mais dos recursos do planeta). Segundo esse modelo a felicidade está obrigatoriamente vinculada ao acesso a lojas e ao consumo exacerbado. Mais cedo ou mais tarde (na verdade, muito antes do que imaginamos) esse “afastamento” da percepção consumista terá de acontecer… No entanto, as dores e os dramas do jovem atual estão relacionados ao fato de ser a primeira geração pós-guerra que precisa enfrentar esse ponto em branco. Ou seja, tem de se preocupar em defender aquilo que foi deixado pelos pais em vez de usar esses recursos como ponto de partida para mais conquistas. E precisam fazer isso no momento em que as habilidades exigidas para pensar em alternativas para lidar com os desafios da vida, buscar a felicidade e conferir sentido às vivências foram esquecidas ou estão enferrujadas…

MeC: Apesar da crescente quantidade de estímulos externos (como TV e internet), as pessoas estão cada vez mais entediadas. Parece que estamos perdendo a capacidade de encontrar estímulos internos. Por quê?

ZB: Ao longo de várias décadas, e particularmente nos últimos 30 anos da orgia consumista, temos sido treinados e forçados a buscar o sentido da vida no entretenimento e prazer. Fomos condicionados a ser intolerantes a todo desconforto e inconveniên-cia em qualquer área da vida ou tarefa que exija determinação, força de vontade, esforço árduo e prontidão para a privação pessoal. Aceitamos informações somente do tipo infotainment (expressão que designa mensagens midiáticas que integram elementos de caráter jornalístico e de entretenimento) e estamos dispostos a aprender apenas por edutainment (“education” + “entertainment”: metodologia aplicada a treinamentos que recorre à pedagogia e ao entretenimento por meio do uso intensivo de jogos e de atividades lúdicas).

MeC: É comum buscarmos fugas que deixam a impressão de que falta tempo para viver e desfrutar de tudo o que poderíamos. E o mais provável é que cada vez tenhamos mais opções. Qual a consequência disso?

ZB: Embora seja tentador poder “escolher” entre essa aparente profusão de opções, o problema é que a maioria delas leva a lugares distantes da raiz dos nossos conflitos e aflições, impedindo que os enfrentemos. Lojas vendem alívio de curto prazo, substitutos das satisfações que buscamos e precisamos, como viagens que oferecem fuga e descanso momentâneo… No entanto, por mais que nos aventuremos pelo mundo das compras ou façamos viagens exóticas, aquilo que procuramos continuará ausente.

A entrevista completa e trechos do novo livro de Bauman, A cultura no mundo líquido moderno, estão na edição de outubro de Mente e Cérebro, disponível nas bancas e na Loja Duetto.

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