Ideias e cadernetas

O que se escreve em uma caderneta, dessas pequenas? Normalmente datas, compromissos, coisas a fazer, pequenos recados, números de telefones que muitas vezes não lembramos de quem é, se não escrevermos judiciosamente o nome da pessoa; enfim, cadernetas são pequenos locais para escrevermos o que, ao fim e ao cabo, se tornam  inventários do nosso dia-a-dia, rascunhos do cotidiano. Esse é o senso-comum, e para isso as mesmas são criadas. A tecnologia, contudo, ao buscar espaços cada vez maiores, terminou por invadir tal utilização, como, aliás, tem-se especializado em fazer em relação a quase tudo; como resultado, as agendas e cadernetas foram minguando de tamanho, até o mínimo possível, excessão feitas àquelas destinadas a nichos específicos de consumidores, o que significa, em outros termos, não alcançáveis em preço pelo comum dos mortais.

Igualmente nos habituamos a escrever de modo cada vez mais sumário, utilizando livremente siglas convencionais e as que inventamos, aliás melhor seria dizer que escrevemos códigos matemáticos. Escritores, porém, não compartilham desse modus operandi. Escritores querem cadernetas, papéis, cadernos, com ou sem linhas, e deste modo procedem os artistas de modo geral, desde as anotações minúsculas que poderão gerar partituras, contos, ilustrações, enfim, rascunhos de ideias. não só eles procedem assim, mas matemáticos, cientistas, todos aqueles que não abrem mão da escrita, dela não prescindem, não importando se o que usam para colar suas ideias tenha a gramatura x, ou seja o papel y, ou que a espessura do mesmo seja z. Clarice Lispector, por exemplo, anotava ideias em meros e simples guardanapos de papel, quando estava em algum bar conversando com seus amigos jornalistas. Muitas vezes tais rascunhos iriam se transformar em reportagens ou poemas ou livros, não importava.

Parece que todos precisamos de uma base física para escrever. Penso que aos criativos acode o medo irreprimível de que, se um insight for perdido, não for escrito, ou mesmo uma palavra-chave, tudo se perderá, pelo que não podem dispensar um instrumento de escrita e uma base para tanto. Haveria um desconsolo muito grande e um risco considerável em confiar tão-só na memória. E, como sabemos, nem todos somos disciplinados ou temos uma memória privilegiada. Nesses casos, é bem possível que a pequena caderneta seja a diferença entre uma peça de teatro e o nada. Vivam, portanto, os pequenos blocos de anotações!

Esse texto, por exemplo, partiu da ideia de que ter uma minúscula agenda possa registrar o início de algo a dizer, algo a escrever. A palavra foi só uma, “caderneta” e as primeiras linhas foram gestadas dentro de um banco comercial, com um barulho bastante grande, e não havia a menor possibilidade de continuar ali, por isso escrevi a palavra e esqueci o fato. Somente dois meses após, decorrido o Natal, o Ano Novo, etc, é que o que queria escrever desvelou-se, enquanto a caneta Compactor fazia seu trabalho, que agora vocês apreciam. HILTON BESNOS

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