A tatuagem e a escrita

Tattoo Maori Polinésia kirituhi Tatuagem.1.125 por Tatuagem Polinésia - Tattoo Maori

 

Fonte: http://www.flickr.com/search/?q=tatuagem&page=7

Corpos, sempre corpos. Gordos, baixos, altos, sensuais, inexpressivos, bem vestidos, nem tanto, sempre corpos. Não me entusiasmo tanto. Não depois de ter lido Bauman e saber que todos os corpos, hoje, são pacotes, são kits de apresentação, de uma forma sutil ou não, cartazes, outdoors on board crossing on the street. Corpos lindos, meios de iniciar fantasias, romances, papéis virgens para tatuagens, escritas de significados para quem são leitores experimentados dessas linhas de encantamento.

Tatuagens são novas escritas, diferentes das rugas que se vão acumulando, dia a dia, na medida em que nossos corpos vão perdendo a flexibilidade, a força, mesmo o entusiasmo. Elas são um escrever de novos sonhos, marcados, inscritos por nossa vontade. Quando nos formos, continuarão ali, integradas até onde nosso perdido metabolismo e nossas habituais degenerescências possam suportar. Há anos escrevi sobre meu próprio corpo, lembranças que não suportaria fossem perdidas pela minha cada vez mais curta memória. Se um dia a segunda se for, as marcas coloridas pelo menos me dirão: “estou aqui, ainda está curioso sobre o porque da minha presença?”

Estou por aí, um homem já maduro, rodando em busca do que fui, percebendo o que virá, atento especialmente ao que deixei plantado por aí, pelas relações que cultivei, pelas que perdi. Às vezes me sinto em um onibus que não sabe mais onde são  as paradas obrigatórias e fica andando de lá para cá, de cá para lá sem muito objetivo. Quando a noite vem, a minha viuvez se torna maior, como uma sombra que se expande quando encontra o sol. As noites são minhas companheiras permanentes, quando sequer a saudade vem me recontar as suas histórias.  Se o sono acorre, e me traz o esquecimento e, de certo modo me entretém, posso ter a certeza de que, no dia seguinte, minha secreta tatuagem continuará me lembrando dos significantes que talvez não devesse nunca esquecer, mas que, muitas vezes por autopiedade, finjo fazê-lo. Às vezes, tatuagens podem ser más. Sem dúvidas, muito más.

Não rodo mais a cidade em busca de corpos. Corpos são isso, fantasias belas que convidam. Nem sempre estou disposto a me deixar levar pelas ilusões. Os corpos que busco são aqueles que trazem marcas de vida,  aqueles que dispensam um photoshop, porque não mais se ocupam com isso. Meus parcos amigos, dos quais a distancia tornou mais ainda ilusória a presença, são apenas vozes, que ecoam nas minhas noites. Eles não tem mais corpos, são somente essencias, momentos de silencios compreensivos, de compartilhares sensíveis, de conversas mais desbragadas. Cada vez que, nesses instantes e nessas ocasiões quero te-los mais perto,  vou ao espelho e olho minha tatuagem. Cada linha, cada traçado em minha pele eu transformei em um acesso até onde possa ou queira arribar. Às vezes penso que fiz bem em confundir minha história com a de meu corpo, e entalhar-me com tal singular escrita. Afinal, árvores são sempre árvores, e se meu prédio me parece tão despersonalizado e se meu apartamento não diz quem eu sou, nada mais interessante do que tal escrevinhar um tanto quanto exótico.

Essa noite, decidi, auto-sustentarei minha solidão. HILTON BESNOS.

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