Alianças & Amor

O casamento de vinte e cinco anos acabou, por decisão de João quando uma voz feminina lhe falou, ao telefone, que sabia “das aventuras de sua mulher Beatriz”. Ora, após tanto tempo de convívio, e considerando os últimos quatro anos, ele sabia que nada mais restava das promessas e da vida amorosa com que ambos haviam iniciado a vida em comum. Mais do que romance, havia tão-só lembranças, algumas felizes, outras nem tanto e que se foram perdendo no tempo, mas não muito mais que isso. Não tinham filhos, e Beatriz sempre sofrera com isso, especialmente tendo certeza de que João, de modo velado, a responsabilizava, ela, uma “mulher seca por dentro”, como sua sogra dizia, de quando em quando, de modo tão cruel. A vida entre ambos se arrastava de maneira monocórdia, dia após dia como a rotação da Terra. Dias, invernos, primaveras, noites se passavam, enquanto ambos aceitavam tacitamente administrar o papel de casados, sem qualquer emoção ou sentido. Portanto, pouco importava ao marido que ela possuísse algum amante, de quando em quando. Afinal, ela era ainda uma mulher bastante atraente, mas entre ambos se estabelecera um triste pacto de licenciosidade. A questão que abalara João após o telefonema não demandava sentimentos, longe disso.

Durante a vida em comum, ambos haviam amealhado uma considerável carta de bens, entre os quais se incluíam créditos, uma distribuidora de medicamentos, imóveis, ações na bolsa de valores, propriedades. Era impossível, portanto, que ele não se houvesse tocado com a possibilidade de ver sua imagem degradada publicamente ou ainda de ser vítima de chantagem. Afinal, era um empresário famoso, e as relações comerciais não se comoveriam com deslizes eróticos, sempre haveria prejuízos de todas as ordens. Naquela noite decidiu que iria agir. Seu amigo Carlos E. M, em Porto Alegre já havia passado por tal situação. Na mesma noite ligou para Guarulhos e reservou uma passagem somente de ida para o sul. Lá, poderia engendrar um plano. Nos próximos dias, pouco falou com Beatriz, ficando bem mais tempo na rua do que na casa de quase quatrocentos metros quadrados.

Beatriz notou: havia silêncios e reticências quase que palpáveis, que se esvaíam ante a negativa da conversa, ante a esquiva do que falar. Na noite de quarta-feira, quando voltou à casa, após ter inutilmente tentado fazer compras em um shopping qualquer e com uma sensação intuitiva que lhe alertava os sentidos, encontrou um bilhete. ” Vou para Porto Alegre encontrar com o Carlos. Devo voltar na semana que vem”. Um bilhete seco e definitivo. As roupas que habitualmente João levava quando em viagem, não estavam no armário: dois ternos completos, dois pares de gravata, duas calças, quatro camisas sociais, duas polo, dois pares de sapato, quatro pares de meias. João adorava o número dois e seus múltiplos. Um marido previsível.

Minutos depois, Beatriz descobriu o horário do vôo e a companhia aérea. Ligou do celular para João e guardou-o na bolsa. Ainda tinha pelo menos três horas pela frente.

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Havia muitas pessoas no enterro de João; era quinze de julho e o frio havia invadido São Paulo fazia uma semana. Frio sem garoa, seco. Beatriz era a face do desconsolo: a morte do marido ocorrera justo quando estavam em uma fase tranqüila da vida, com uma situação financeira bastante sólida. Os que compareceram ao enterro admiravam intensamente o equilíbrio do casal e o patrimônio que construíram. Infelizmente, a vida era assim, injusta, talvez cruel. João tinha sido atropelado quando atravessava a Rio Branco, duas horas antes da viagem para Porto Alegre. Compareceram muitos, alguns por interesse, outros por estratégia comercial, terceiros ainda porque amigos, esses em menor número.  Durante a cerimônia, a viúva se aproximou de sua prima  Clara e, abraçando-a, sussurrou-lhe: “Cuidado com o que você faz, e especialmente com o que você diz”. Clara empalideceu, enquanto Beatriz se afastava. Algumas pessoas notaram o constrangimento da última, mas não quiseram aproximar-se, menos ainda indagar o que houvera.

Quatro horas depois, Beatriz voltou para casa. Deixou-se relaxar em um dos chaise longer da sala por um bom tempo, até que ingressou em um sonho um tanto quanto agitado. Ao acordar, a noite já tomara conta de tudo. Acendeu as luzes, ligou Gotan Project, selecionou Santa Maria del Buen Aire. Foi à cozinha e agradeceu à si mesma por ter dispensado os serviçais, enquanto bebia um pouco de soda com gelo. Quando a voz  de Julieta Venegas invadiu o ambiente, abriu a torneira da ducha elétrica e banhou-se, antes tomando a providência de desligar todos os telefones. Finalmente estava em paz, quase feliz.

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Quando o telefone soou no apartamento 501 do prédio classe média da avenida Bastian, em Porto Alegre,  Carla desligou o aparelho de som. A ligação era de algum telefone público, pelo chiado característico e pelo ruído inconfundível do trânsito. A empregada estava mais era pensando no dia seguinte, quando iria finalmente se encontrar com o Ribeiro, que a estava rondando desde há muito. “Não, o Dr. Carlos viajou, está em Tupanciretã, tratando de negócios, deve voltar na sexta-feira”, disse para a voz masculina. Dada a informação, perguntou quem estava falando, mas, fosse quem fosse, já havia desligado.

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O celular de Beatriz tocou intensamente, por várias vezes, até que João atendeu. Foi ríspido, não queria conversa. “Já disse que estou no aeroporto!’. Ía desligando quando ela avisou que a sogra tinha sofrido um atropelamento e estava internada no Sírio Libanês. “A mãe foi atropelada?” “E não está nada bem, já estou com ela aqui”. Beatriz falava nervosamente, a voz atropelando sílabas. “Inferno!” pensou João. “Está bem, estou indo”, foi o que disse. Enquanto a voz monocórdia pedia para que “os passageiros do vôo WYU 457678 com destino a Porto Alegre e escala em Florianópolis se dirigissem ao portão dois de embarque de voos domésticos”, João se encontrava, veloz, na direção do hospital. Prevendo a perda do vôo, João jogou sua maleta de executivo no banco traseiro do automóvel.

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Tudo aconteceu de modo tão lento…. João encontrando-a em frente ao hospital, ela chorando de modo incontrolável, guiando-o para próximo à calçada, ele querendo entrar para saber de sua mãe e, de repente, em um gesto absolutamente casual, meticulosamente calculado, o pé dela cria uma alavanca e o empurra com um gesto de causalidade imperceptível, de tal modo que ele desaba, pesado, em meio ao trânsito da Rua Dona Adma Jafet, para ser colhido por um Gol que trafegava em alta velocidade e que o joga com extrema violência sob a calçada, enquanto desaparece dobrando à direita na Rua Dr. Marco Antonio de Oliveira.  Beatriz se agacha, põe as mãos nos bolsos do marido, recolhe seu celular, com a mão envolta em um lenço, e entra chorando e aos gritos no Hospital. O marido fora atropelado. Correm médicos, tentam reanimá-lo, trazê-lo à vida, mas nada podem fazer. O afundamento do crânio era evidente e tudo, de repente, se transformara em um mar de sangue. Se João sobrevivesse, diriam dali há tempos para Beatriz, sua vida seria vegetativa, totalmente dependente dela e de seus cuidados.

Parentes e amigos acorrem ao Sírio Libanês. Daí por diante tudo se passaria como em um sonho, até o momento em que Beatriz, finalmente afunda na cama do casal. Antes de mergulhar no sono, olha a maleta de executivo de João e diz: “Amanhã, como cuidei dele, cuidarei de você…”

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