Elegance sür Moinhos de Vento

 

Noite dessas fomos assistir – eu e a Ana- o filme “Baaria – A porta do vento”, direção de Giuseppe Tornatore, e música de Ennio Morricone.  Baaria é um momento maravilhoso do cinema, e segue a mesma linha intensamente humana de “Cinema Paradiso” (1980), no caso a ótica de um menino e de três gerações de sua família, iniciando no período fascista.  Mas o propósito não é falar a respeito do filme, que fomos assistir em uma das salas GCN, no Shopping Moinhos, em um bairro chamado Moinhos de Vento, que abriga la crème de la crème da classe média alta de Porto Alegre. Algo como os Jardins em São Paulo. Próximo ao shopping, a famosa rua Carlos Chagas, com suas cafeterias e seu inconfundível charme.

É interessante, nesses locais,  apreciar a fauna humana, em especial aquela na qual o dinheiro passou, de há muito, a ser o valor absoluto, desimportando qualquer outra consideração. É uma viagem a um zoo particular. Minha mulher, que estava vestida adequadamente, se sentiu observada com resistência pelas senhoras e moças com atitude e lenços, e calças jeans fashion e barriguinhas esculpidas a ouro que circulavam pelo shopping como se estivessem em algum grande evento. Ao sairmos, resolvi beber água mineral com gás. Para tanto, entrei em uma dessas interessantes boulangeries ( ou deveria chamar de patisseries ou ainda, em um erro incalculável, talvez de braseirie) para apanhar uma garrafinha. Ora, em qualquer buteco civilizado, o preço não passa de dois reais. Ali custou três.

Atingindo a rua Hilário Ribeiro, que fica apenas a três quadras do shopping, para buscar o carro, resolvi fumar um cigarro enquanto bebia. A vitrine da loja Maria Bonita me chamou a atenção. Ali havia um vestido (que eu entendo como absolutamente comum) pelo preço módico de R$4.832,00. Não, não, eu não errei a vírgula, é isso mesmo: quatro mil oitocentos e trinta e dois reais. Enquanto isso, uma moça elegantemente vestida passava por nós, com os olhos procurando Alfa Centauri ou talvez, mais modestamente, as Tres Marias. Portava uma expressão distante, irreal, dando leves ares de Giselle Bünchen, dentro de sua beleza nada tropical. Digamos, uma moça com atitude.  Un jeune et jolie femme alla par trottoirs.

Do outro lado da rua, havia um guardador de carros, mas, claro, não um guardador de carros comum, desses barrigudos com camisas abertas que se sentam em cadeiras de plástico e se param a ler jornais, revistas e se comprazem em dizer obscenidades e rir alto. Ele não, um jovem adolescente que estava calçando um tenis de marca e um jogging muito adequado àquela clientela. Enquanto retornávamos para casa, conversávamos sobre a irresistível força da ostentação, do caminho sem retorno do mundo do consumo que tanto nos alerta Szygmunt Bauman, de questões ligadas à exploração do trabalho, algo sobre sonegação fiscal e outros assuntos. Beleza, por exemplo, e valores (nesse caso, não os monetários). De modo que só fomos conversar sobre a obra de arte que assistimos, de Tornatore, no dia seguinte.

Uma referência. Perguntado sobre qual a motivação para construir o Burj al Arab,  considerado o único hotel sete estrelas existente, com todo o peso de luxo e ostentação possíveis, o sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum respondeu candidamente que queria construir um símbolo para Dubai e para os Emirados Árabes, assim como as grandes metrópoles do mundo (Estátua da Liberdade em Manhatan, NY, Cristo Redentor, no Rio, La Tour Eiffel em Paris, e assim por diante). Esqueceu-se contudo o mecenas que se observarmos as grandes construções que realmente marcam as paisagens urbanas, encontraremos um elemento que se chama história, que se chama continuidade, vontade, grandes esforços e sacrifícios pessoais, assim como teremos tais presenças nas grandes obras de arte e nas demais atividades humanas. Pensemos, por exemplo, em Petra, na Jordânia, pensemos na Igreja da Sagrada Família, em Barcelona, pensemos nos exemplos citados. O que você vê? Apenas dinheiro? Ora, dinheiro foi fundamental para que tais obras se realizassem, mas ele só não é tudo como também não justifica o empenho e a vontade humanas. É preciso, pois, mais do que dinheiro.

Enquanto o mundo entra em uma época na qual o conhecimento e a epistemologia é o que mais se valoriza, os Moinhos de Vento são movidos pela capacidade restrita do consumo, da beleza efêmera e da vaidade, forças sem dúvidas indiscutíveis em uma sociedade na qual os valores mais observáveis são aqueles que, cotidianamente são registrados através do I-BOVESPA. HILTON BESNOS

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