Torre de Babel

Digo o que sei a quem – tenho certeza – não apreenderá o que falo; bobagem querer que outros te entendam de modo tão completo. Mesmo o amor por vezes ignora os fatos, como desimporta-se com o silêncio. Pessoas que se amam não deixam de ser o que são, aliás, raras vezes o fizemos. Gastamos uma parcela considerável de nossa energia explicando, justificando, julgando, tentando provar que nossos pontos de vista são os melhores, pelo que exaustivamente tentamos torná-los mais palatáveis, razoáveis.

Não é uma tarefa fácil a do convencimento, mas ao longo da vida aprendemos que pessoas se diferem, e muito, de maneira que conversar com alguns é impraticável, é uma robusta perda de tempo. Embora tenhamos de conviver, não conseguimos avançar em meio ao atoleiro da mediocridade, ao evanescente da futilidade, à grosseria da estupidez. Não há como fugir. Falar com quem não tem o hábito de escutar também é uma tarefa dura, complicada, espinhosa. Assim, procuramos uma alternativa, que se configura na conversa circular.

Conversamos circularmente quando obedecemos rigorosamente os critérios da mesmice e do esperável. Grande invenção, a circularidade nos leva, como diz o nome, a lugar algum. Trata-se de simplesmente falar aqueles assuntos que estão já padronizados dentro de uma expectativa social. Assim, empregados falarão mal de seus empregadores, professores falarão mal de seus alunos, esposas falarão mal de seus maridos, maridos falarão bem da mulher de terceiros, terceiros serão execrados ou idolatrados, todos comentarão sobre a falta de dinheiro ou onde investir seu dinheiro, “patroas” (ai!) falarão mal de suas empregadas e tudo o que escrevi antes deve ser visto de modo inverso. O blá-blá-blá diuturno tão só afirma nossas solidões, visto que não conseguimos estabelecer qualquer diálogo mais razoável a respeito de qualquer coisa além do jogo de futebol da semana.

Quando terminamos esse massacre dialógico, a sensação é de cansaço. A única coisa que pode remediar essa sessão diária de sado-masoquismo é o bom humor. E bom humor implica em inclusão e não em exclusão. Quem ri se inclui no grupo que ri. Quem ironiza exclui o grupo para atacar seu alvo. Sorrisos amarelos e verdes são, por isso, comuns. No mundo do trabalho apenas o humor salva. Fora disso, não há salvação, a não ser que garimpemos, com a paciência de um ourives, algumas  peças douradas, que brilharão independentemente do local onde estejam.

Pessoas bem humoradas, contudo, são muitas vezes alvos de segregação, não são bem vistas por aquelas que lhes têm inveja e por aquelas que pensam que o mundo é um constante vale de lágrimas, onde todos temos de purgar as penas do inferno, amplificadas ao nível da intolerância. Há ainda aqueles que pensam que o trabalho deve ser o mais pesado, o mais árduo, o mais intolerável possível, tratando de povoar a sua vida e de infelicitar os outros com base na insegurança, na dúvida, na agonia, no ódio desmesurado, na crítica contundente, na urgência aplastante.  A única urgência, percebe-se, é ser feliz.

Afora todas essas danosidades à saúde mental, há aqueles que se esforçam por tentar ensinar aos outros como devem viver as suas vidas, enquanto outros optam por um mar dentado envolto em doenças, dores, idiossincrasias e tentativas de suicídio mental. Continue rindo, continue não levando tais demências a sério, continue perseverando em ser o que você é. Desimporte-se, pelo menos um pouco, com o que os outros sentem, pensam, doem, se estertoram. Busque uma ilha dentro de você, sem, contudo, isolar-se do mundo, senão corre-se o risco de pensar que o mundo está bem abaixo do peito, cravadinho no umbigo. Veja o mundo do tamanho que ele é, e colabore com o mesmo. O maior vício é a pobreza de espírito, é a indecência da alma, é o despudor da burrice crônica, é a patrulha ideológica, é virar uma alface. Coma, portanto, a alface, porque ela foi feita pra isso. De vez em quando, é bom uma saladinha. HILTON BESNOS

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