Cartas

DELE PARA ELA

Montevidéu, 14 de julyo de 2005.

Guardarás contigo bem mais do que minha raiva momentânea, fugaz como um beijo apaixonado. Não, repito, nada de sentidos vãos, que se apagam e se perdem com os ventos ou ficam jogados nos desvãos da memória. Mais, bem mais que isso, meu ódio é como uma tempestade de chumbo, uma pústula que se rompeu, espelhando seu cheiro adocicado de veneno. Terminarás teus dias por minhas mãos ou pagarei para que alguém o faça, embora prefira, por ora, dar cabo de ti pessoalmente, sentir a fruição do prazer que terei.  Tenho meios, dinheiro e poder para fazê-lo.

Antes, porém, providenciarei para que sintas os rigores da miséria e os aguilhões da fome, até que, solitária, sem recursos, rastejes como um desses infamantes insetos cegos e pegajosos, a quem esmagamos por um toma-lá-dá-cá. A solidão te cobrirá como uma capa, e as sombras serão tuas companhias, teus pais, teus amantes e confidentes. Somente então decidirei em que circunstâncias se dará a tua morte, quando, ao desamparo, implorares pelo minuto final, só a partir daí minha lança te alcançará, para tua derradeira agonia, até que te tornes nada mais do que uma lembrança desfocada, um desses filmes antigos, dos quais a poeira do tempo se encarregou lentamente de destruir. Não me é possível esquecer o que fizestes, porque fizestes e o mar de iniquidades onde me afoguei. Somente a tua morte, o teu desaparecimento físico será suficiente para queimar, como se fosse um incenso as lembranças com as quais envenenasses minha vida. Assim, pulsa em mim uma única vontade, que é a de ver teu final.

Não te amasse tanto, hoje mesmo seria teu último dia entre os vivos.

DELA PARA ELE

Belo Horizonte, 1 de agosto de 2005.

Se me matas, assassino cruel, igualmente morres; haverá em ti um vazio de eterna cegueira, serás um hemiplégico, corpo cansado e paralisado a quem se arrancou a alma, a luz da virtude, o facho da humanidade. Teus sonhos serão um labirinto de pesadelos mergulhados em uma noite sem fim, uma desesperança sem nome. Se me matares, matas em ti o parco de beleza que te mostrei e te trouxe à vida, pois foi através de mim que te tornastes homem, que te sufocastes de prazer. Assim, a escolha é tua, e sei que nada posso para impedir a tua sanha.

Decide pois e toma a minha morte em tuas mãos, pois meu sangue te acompanhará até teus últimos dias. Não desdenhas da tua truculência, mas te concedas a dúvida da sanidade, a irrequieta vontade dos que desejam. Não negocio afetos, sabes disso desde que pusestes tuas mãos em meus seios e me tomaste como femea. Meus amores não são para mercancias. Anda, mata-me agora, que já te saciastes em minha cama, deixando que teu corpo se afogasse em mim; esquece isso tudo e executa teu ritual de morte. Sei que não me adianta tentar a fuga, não tenho como fazê-lo e não há um só lugar onde possa me esconder sem que algum dos teus enviados consiga me localizar e te dizer onde estou. Liquida de imediato com isso, porque o meu desprezo cada vez mais toma corpo em relação a ti, aos teus gestos de covarde. Anda, menininho mimado, desbragado em poder e amante das ordens, das disputas, faça o que tens de fazer.

Condenes meu corpo, porque minha alma jamais foi tua, liberta-me da prisão da carne, das vísceras, do desejo, do sangue, porque minha alma, leve e fugaz, já principia, em tudo, o seu vôo.

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