Dia e noite

O dia é a indústria, é o empreendimento, é a fábrica, é o movimento; a noite não, a noite é a entrega, o tempo passando devagar, como biologicamente ele se fez, e não um tempo de horário de verão. A noite não é apenas um passar de horas, a noite é a própria hora a partir dos seus momentos de devaneio, de criatividade, de impulsividade. A noite revela os monstros e os bons; ela os absorve e os recebe na sua rede de estrelas. O dia não. O atavismo do dia é engolfar-se em si próprio, reto como uma lâmina. A noite? Ah, essa é curva, incerta, mal-sabida e mal-dormida.
Mesmo que não sonhemos, a noite é um sonho, mesmo que sonambulemos por aí, a noite nos dá a notícia dos nossos desejos, os mais improváveis e os mais ternos. O dia é o sentido da produtividade, do ir para, do que deve ser produzido ou do que deve ser renunciado.
Os conhecimentos acontecem nos dias, os reconhecimentos, nas noites. Os gritos dos dias são os dos trens, dos automóveis, dos estacionamentos, dos elevadores, dos passos, dos compromissos e dos eventuais repousos para as novas jornadas de trabalho. Os gritos das noites são os dos sentidos e dos sentimentos, que variam desde o dormir simples com seus ruídos involuntários até os gritos de terror e os ronronares amorosos.
O dia é para todos, a noite só para os que, no fundo, não acreditam nos dias.
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