Linguagem politicamente correta

Sempre tive a impressão de que a linguagem politicamente correta é um artifício, um embuste, uma máscara para encobrir realidades nem sempre agradáveis, que envolvem questões e dados sensíveis. Por exemplo, eu sou o que mesmo? Ah, sim: sou latino-americano, caucasiano-descendente e semita. Essa é a minha definição politicamente correta.  Se, contudo, falarmos linguagem de gente, sou brasileiro, branco e judeu. Já os negros devem ser chamados de afro-descendentes, como se isso fosse um antídoto contra o racismo, como se isso purgasse a enorme dívida social, econômica e cultural que o Brasil tem para com mais de cinquenta por cento de sua população. Não importa o nome que se dê, o que importa é o que efetivamente se faz para minorar os estragos já feitos. Os negros, nesse país, tem uma enorme contribuição em todos os campos de cultura, além de outros. Basta, por exemplo, visitarmos o Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, para vermos a importãncia do negro nesse país.

Isabel Allende, iniciando sua brilhante participação em evento internacional (1), cita um aforisma judeu, que diz:  ” O que é mais verdadeiro que a verdade? A História “.  E a História diz claramente que os negros foram libertados da maldita escravidão brasileira através da Lei Áurea, de 13 de maio de 1888 para, no dia seguinte, serem jogados na rua, para uma nova vida de servidão cruel, injusta e desumana. Somente no governo Lula, através da Lei 8.213/1991 e decorridos 103 anos da infamante situação à qual se expos toda a população negra, é implicada uma política que visa subverter tal quadro de insanidade social. Os que são contrários ao regime de cotas são os mesmos que chamam negros de afro-descendentes, mas que achariam muito exótico se fossem eles próprios chamados de caucasianos-descendentes. A razão é clara, a exceção é que deve ter uma nomeação explícita. Para os demais, basta a linguagem comum.

A arte da nomeação, portanto, atende a imperativos discursivos. Como temos, atualmente um modelo social no qual –  embora continue campeando a hipocrisia e a tendência ao regime de castas sociais – houve um suporte ideológico a múltiplos avanços democráticos obtidos graças aos movimentos sociais, político-institucionais e integrações emergentes (2) não é mais possível sustentar-se uma linguagem que não corresponda à tal momento histórico. Criou-se então uma linguagem anódina, cuja conveniência acompanha tal quadro. No entanto, nomear é insuficiente, assim como é bem mais fácil desejar do que arriscar-se à executar o objeto do nosso desejo.

Atualmente o campo de discussão dos direitos civis se ampliou significativamente, o que iniciou especialmente a partir dos anos de contestação do século XX. O fato é que a História não pode ser brecada e que parece que uma boa parte da humanidade permanece infensa aos seus ensinamentos. Não somos mais cidadãos porque concedemos chamar os negros de afro-descendentes, nem somos mais participativos porque modelamos nossos discursos a um padrão que se entenda mais progressista. Somos mais cidadãos quando agimos buscando uma consciência política maior, quando saímos de um estado de intransigência para um de interação com o Outro. Somente passamos ao estágio da cidadania quando nos colocamos política e sensivelmente no lugar do Outro, e quando permitimos que ele se coloque em nosso Lugar. Talvez por isso o exercício democrático seja tão interessante e, em outros termos, tão complexo. Não basta sabermos que existe a negritude, senão quando nos pomos não ante a negritude, mas quando à mesma nos solidarizamos e nos integramos à mesma sem qualquer reserva mental.

Somos um país mulato, negro, ameríndio e talvez por isso sejamos felizes, tão diferentes dos países gelados da Europa com os quais nossa subserviente elite quer nos forçar a tomarmos como seguidores. Somos latino-americanos, africanos, somos a Geléia Real de Gilberto Gil e Torquato Neto.

(1) http://www.ted.com/talks/lang/por_br/isabel_allende_tells_tales_of_passion.html

(2) Aqui a expressão é utilizada no sentido empregado por Steven Johnson, no livro Emergência – A dinâmica de rede em formigas, cérebro, cidades, Ed. Jorge Zahar, 2003.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s