O espelho

Pessoas fazem escolhas em suas vidas, é o que se diz, é o que se pensa. Nem sempre, contudo, há liberdade de opção para fazê-las. Na maioria das vezes o leque de possibilidades é bem pequeno, não raro mínimo; por outro lado, nem sempre tais opções são reconhecidas, seja por uma questão de cultura, pela educação recebida, pelo ambiente onde continuamente se construíram ao longo do tempo. A sensação de mal-estar e de incongruência mais faz aumentar as frustrações, os desenganos e as tristezas. Talvez por isso o destino seja um deus tão invocado, nas tragédias e nas alegrias.

Algo transcendente deve explicar, certamente, o fato de nossas necessidades, de nossos desejos não serem encaminhados, atendidos. O destino passa a ser, então, mais que uma entidade, para se tornar um oráculo, onde todos recorrem em busca da minoração de nossas frustrações. Muitos se enchem de ódios e de ressentimentos, de angústia e de inveja, enquanto outros são tão afortunados que parecem estar sempre felizes, como se flutuassem acima das tristezas e das tolices do dia-a-dia.

As primeiras são dignas de pena, de desprezo, pois são fracas, marionetes de um jogo onde as cartas já estão marcadas, inúteis estrangeiras de si mesmas. As segundas chegam, graças às suas certezas e acertos, muitas vezes casuais, à arrogância zombeteira, presunçosa. As injustiças e omissões do mundo se perfazem nas vidas dessas pústulas infames: das que passam como folhas ao vento pela vida, crendo cegamente no fato de que vêem a vida para sofrer, o que alimenta sua conformidade doentia e daquelas que a desfrutam como nababos, como primas abençoadas que, estando a se fartar de um banquete cujo prato principal é o consumo, a jactância e a ostentação de seus bens materiais demonstram mais nada importar.

Nenhuma dessas figuras consegue ser solidária, porque lhes falta o desinteresse ao fazer algo que poderia efetivamente beneficiar terceiros. As primeiras, corroídas pelas próprias idiossincrasias, não conseguem estender nada de bom grado aos outros, pois insistem que, se o fizerem, estarão se autoprivando de seus alfinetes. Sustentam que já tiveram tanto negado que devem aferrar-se ao que tem como se fossem mastro e flâmula. Àquelas segundas, acode o desinteresse, mesclado à insegurança primordial de que não possam mais gastar tanto para sustentar sua auto-imagem e seus delírios de consumo.

Efetivamente se com terceiros colaboram, é porque buscam gratificações, seja o reconhecimento de seus pares, seja o acesso a mídia ou ainda ao receio que tem de terem arranhados seus esforços tão surpreendentes para (de)mostrarem publicamente o que entendam que lhes seja vantajoso, seja do ponto de vista social ou meramente econômico. Ao agirem assim, ambas entram em um mundo de trocas de valores mercantis, nada mais do que isso, embora busquem dar a tais transações ares simbólicos de mediação com um mundo ético e humanitário.

Estou aqui para denunciá-las, com todas as suas canalhices cometidas diuturnamente. Mais: vim para limitá-las. Eu sou o Espelho.

Vagueio assim pelos monturos deixados pelos homens e mulheres vãos em seus caminhos, pois deles nada mais se vê do que tristes lembranças. São deles que provêm as energias que iluminam as próprias leviandades, os próprios egoísmos. Tenho, assim, vontade de recolhê-los, não apenas aos dejetos e lixos, mas a eles mesmos, seus produtores, amontoados bizarros que pesteiam a terra com seus incômodos, com suas idiossincrasias e suas leviandades.

 Por vezes me detenho sob alguma paliçada, observando as casas, as habitações onde se desenvolvem os dramas, às pequenas misérias alentadas pelos desejos, pela ambição, e de onde esteja posso aspirar a sombra oculta que contamina as almas de quem talvez possa ter uma vida mais prestimosa. Nada adianta, contudo, que volta a roda da arrogância a sorver, de uma só vez, promessas, sonhos, animações, e tudo se torna como uma mescla colorida de frustrações que se elevam como cumulus nimbus. Simplesmente a tanto que já vi, nada mais me espanta, me entristece, me comove, me deixa mais ou me deixa menos.

Apenas o amor me consola; não me alvoroçam mais as mesquinharias do dia a dia, nem as surpresas que os homens e mulheres causam a si mesmos e aos outros; nada mais me toca, me comove, a não ser a inocência das crianças, o desconsolo dos idosos e o reconhecimento da loucura. No mais, estou infenso a qualquer boa-intenção que se esboroa como um castelo de cartas, como um pedaço de gelo posto a queimar no calor. Meus atavismos acabaram porque não há porque mantê-los junto a mim. Almas, almas, almas apenas cruzam meus caminhos, como cursores sem rumo, como trens sem frenagens, como albatrozes planando. Não mais me comovem os desusos, os rumores, as eternas reclamações, nem sequer as ilusórias pontuações com as quais os homens e as mulheres buscam alcançar o paraíso. Tolos, inúteis apelos daqueles, mas bem mais irreconhecíveis em suas preces que, por não serem preces, são apelações mentirosas de corações que se calaram ante as conveniências.

Talvez somente por aqui eu possa revitalizar as minhas visões, que transcendem de muito os dogmas dos homens e das mulheres que se crêem muitas vezes imortais por seus desejos e por suas miserabilidades revitalizadas através de desejos nos quais a carne, a voragem, o gozo e a vulnerabilidade são por demais avultadas. Talvez somente por aqui eu possa enfim descrever pequenas histórias, já para mim de todas conhecidas, de tão reveladas que não mais as suporto ter unicamente para que eu as desfrute, bagaços de fruta, caroços que tenho de expulsar de minha mente, de meu corpo, para que não exploda de uma vez por todas, e aqui, e agora, rogo, peço para que alguém comigo compartilhe, de todas apenas algumas experiências, parcas recordações de um repertório que vem me sufocando, que bem me atordoa desde que passei a ter das mesmas o conhecimento, e, mais uma vez aqui imploro, de todo humilde que busques uma cadeira, um sofá, um esconso qualquer, mesmo ou preferivelmente uma sombra solene de árvore frondoso, para que te possa dizer o que de muito eu já sei, desde que há muito me tornei o que sou, mensageiro, hipótese não concretizada. Eu sou o Espelho.

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