Traições do cotidiano

 

Perle cariche d'odio - Pearls charged with hate por frescooooo.

Fonte: http://www.flickr.com/search/?w=all&q=odio&m=text

É claro, há pessoas que traem, mas na medida em que nos habituamos a conhecê-las, as correntezas da traição bem poderiam ser melhor entendíveis ou, pelo menos, digeríveis. No entanto, mesmo que o tempo e a experiência nos ajudem a obter uma maior condescendência com a natureza humana em relação às suas incongruências e insatisfações, a traição em si nos põe em desafio quanto a nossa capacidade de tolerância. Uma traição aproxima perigosamente uma confiança pessoal estilhaçada, uma ação sub-reptícia, mal-formada e, não raro, torpe, produzida por outro, além do sentimento envenenado da injustiça. A complementaridade dessas circunstâncias pode gerar uma desconfiança genérica latente em relação não somente ao que traiu, mas a outros, indistintamente. Quem trai, normalmente, tem plena consciência dos sentimentos e dos sentidos do que está manipulando. É, portanto, a traição, o exercício da capacidade da vontade, de tornar vulgar e sem sentido a fidúcia depositada. É uma quebra unilateral de um comportamento mútuo que havia sido explícita ou implicitamente pactuado e que, não raro, pode ser confundido com um sentimento de fraternidade, de colaboração e de solidariedade.

O ato infama quem o comete, não sua vítima. Por usar de subterfúgios, opera na escuridão de propósitos, no registro da maledicência. A traição é uma lâmina ativada por interesses que, no mais das vezes, são mesquinhos e interesseiros, alimentando novos potes de veneno. Não é incomum que a mesma se revele ao longo do tempo, especialmente se a autoria compete a um medíocre. Como se diz nos filmes redundantes das tardes de televisão: “sempre alguém dará com a língua nos dentes”, é o que ocorre, e muitas vezes de modo premeditado e com base em cálculos de probabilidade. Gestos, mesuras, cuidados demasiados, uma tendência a regular meticulosamente discursos, tudo isso pode denunciar quebras atitudinais. Trair demanda silêncios constrangedores, frases sufocadas, vírgulas demasiadas nos discursos, portas abertas para surpresas nem sempre gratificantes, comentários truncados, conversas rapidamente desfocadas. Quanto menos inteligente quem traiu, mais cedo se revelará o elo rompido. Quase uma relação matemática, onde a estupidez do protagonista insere uma função invariável. Dizem os judeus: “o que Paulo fala sobre Pedro revela mais sobre Paulo do que sobre Pedro”.

Talvez a maior infâmia da traição seja a da provocação da injustiça a que só resta, em princípio, tentar tardiamente se defender. Não raro um descobre qual foi o outro que o difamou, o que torna a relação entre ambos bastante pior, dependendo do grau de proximidade entre ambos. Imaginemos colegas de trabalho que, portanto, não tem muito espaço de manobra… Os que traem, ao serem descobertos, serão adicionados aos pobres de espírito e lá ficarão no limbo dos descartáveis. Normalmente aqueles têm uma capacidade razoável de bajulação oca aos que detém o poder ou parcelas de poder. Para os últimos, são úteis embora não mais que um sabonete ou uma tábua de passar roupas, até porque o que revelam – esperando benesses – normalmente não tem poder para modificar nada estruturalmente, apenas despertar maiores ou menores ressentimentos. Quem trai faz parte de uma extensa e infinita romaria de leva-e-traz, diz-que-diz-que e interpretações obtusas e falsas a respeito do outro, geralmente eivadas pela malícia e maledicência.

Só vejo, em princípio, uma forma de lidar com uma peçonha desta ordem: é mostrar claramente que tal serpente não é digna de crédito. Não lhe mostre os dentes, a não ser que seja para morder. Não compartilhe informações, menos ainda pessoais e  mantenha-se acima das pequenas e grandes vilanias, presentes em todas as áreas de nossas vidas. Ao perceber que você é um prato indigesto, o medíocre presente em todo traidor emitirá sinais de alerta e de reconhecimento. Assim como um ladrão de carros evita furtar um automóvel que tem alarme, ou que se encontre ostensivamente bem protegido, o traidor buscará outras vítimas de ocasião. Você é demais para ele, no sentido de que não tem força suficiente para se opor a você. Trate um traidor com inteligência, mas, se necessário, não economize pancadas. Um bom modo de se proteger é sendo competente no que faz, deixando claras as suas posições. De todo modo, mantenha a guarda alerta.

Não importa o que ocorra, o traidor é um medíocre, alguém que não se sente incluído em um grupo de referência. Por não se sentir pertencente, não se sente responsável por qualquer grupo ou por qualquer pessoa; não o defenderá, mantendo, não raro, uma crítica severa, que advém de ressentimentos individuais. Isso ocorre mesmo que o medíocre tenha conseguido, sob esse grupo, algum tipo de ascendência profissional. Dizendo de outro modo, não há, para o medíocre, o exercício legítimo da autoridade, que se baseia ou no conhecimento, ou na experiência, ou na sabedoria ou ainda na liderança. Em não tendo isso, o medíocre precisa ter uma outra fonte de apoio, e esta consiste, em grande parte, da possibilidade de ele ser utilizável ou de cometer pequenas, médias ou grandes vilanias, comprometendo seus possíveis compromissos éticos, mais discursivos do que reais. Percebidos tais equívocos morais, os mesmos terminam por mais ainda afastar a pessoa indesejável do grupo ao qual a mesma reivindicará pertencimento.

O trágico de tudo, para o medíocre, é que ele se sabe e se reconhece assim, o que faz com que desenvolva uma baixo-estima engessante, podendo, por ressentimentos e frustrações, levá-lo a envenenar todo um ambiente, seja de trabalho, seja em sua vida pessoal. Aqui a traição do medíocre é um instrumento de transação de si mesmo em relação a um grupo ou uma barganha em relação a quem eventualmente detenha poder. Temos de considerar que instituições doentes estão mais propensas a terem de suportar medíocres, porque assim efetivou seu modus vivendi. Assim, as relações de dependência se estabelecem, pelo que sua posição deve ser firme, o que não indica inflexibilidade. HILTON BESNOS

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