Discursos autorizativos

Percebo que nada ocorre por acaso; não em termos de discurso. É claro que não descarto o que o direito chama de infortunística, que é um evento imprevisível e que, normalmente provoca danos pessoais, materiais ou ambos. Não é disso que se trata. Falo sobre as nuanças do discurso, das suas intencionalidades. O que isso tem a ver com indisciplina? Na minha modestíssima opinião, muito. O discurso, dependendo de quem ou de qual situação queira privilegiar, pode ser amplamente justificador, no sentido de autorizar alguém que faça parte de um grupo social a fazer ou deixar de fazer algo em razão ao atendimento desse mesmo discurso. É disso que falo. Portanto, o discurso justificador é, por via transversa, autorizativo; não que necessariamente o queira, mas porque pode vir a ser, sem maiores considerações.

Trate de dizer a um grupo social que ele é oprimido, que ele advém da miséria e que o mundo tenderá a mantê-lo na miséria. Aguarde um pouco, e o comportamento, se não for criticizado, tenderá ao atendimento do discurso. Em educação há um exemplo muito claro: o da predição. Um professor foi alertado de que uma determinada turma (chamemos de A) iria provocar problemas de toda a ordem, enquanto outra (vamos chamar de B) não traria trazer qualquer incomodação, seja do ponto de vista cognitivo ou social. O professor já entra predisposto àquela opinião, que ele entendia qualificada. Ao fim e ao cabo, as avaliações apenas confirmam o que o professor já sabia. A turma A se sai bem, enquanto a B amarga fracassos. Somente após, é informado ao professor que aquela opinião era totalmente tendenciosa e que, em verdade a turma A é a que não lhe traria problemas; o contrário em relação à turma B. É o que chamamos de predição, o mestre foi altamente influenciado por quem poderia, na época, fazê-lo. O comportamento do professor já havia sido moldado antes sequer de entrar em contato com as turmas.

Do mesmo modo, se alguém tiver uma justificativa eficiente para suas indisciplinas, para sua falta de colaboração, para o cultivo da própria ignorância, não será nada incomum se utilizá-la de modo eficaz para alcançar o resultado pretendido. Não educa quem faz florecer discursos convenientes, no qual a culpa social faz o papel de protagonista. Que você reconheça situações de vida opressivas, desiguais, injustas é uma coisa; que você autorize alguém através de um discurso condecendente, a proceder de uma maneira incorreta, desagradável, ilegal ou constrangedora vai uma grande diferença. Se alguém é parte de um sistema injusto, ensine-a a ser crítica, propositiva, de modo a que possa influir positivamente e de forma criativa no contexto social; eduque-a para que ela, por si própria, passe a ver alternativas e possibilidades até então não imaginadas, prefira isso a ser vetor de um discurso que, ao fim e ao cabo, traz pelo menos três efeitos mínimos e visíveis: (1) manter a pessoa aprisionada dentro de um ciclo de imposturas; (2) mantê-la dependente e sempre na defesa de seus interesses, esquecendo dos direitos alheios e (3) preservando seu estado de inação moral e ética.

Trate com respeito sua própria fala, mantenha com a mesma um liame forte com a realidade, afinal, influa ou não sobre o ambiente social, profissional ou familiar em que você se encontra, de algum modo você será ouvido. As falas, como aprendemos muitas vezes às duras custas, sempre tem um preço a ser pago. Há dívidas, contudo, que não são facilmente resgatadas. Pense no discurso, pense especialmente no que você pensa: sempre, a despeito de tudo, haverá consequencias. Certifique-se de que, se as mesmas forem graves, você sustentaria ou não sua posição. Afinal, respeito é o mínimo que você pode ter consigo mesmo.

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