Você não acredita, não é?

 

Já disse todas as mentiras que pude criar, e elas sempre me deram a agradável sensação de conveniência. Depois, com o tempo, minhas vítimas preferenciais passaram francamente a duvidar do que eu prestimosamente inventava, de início sutilmente até o ponto em que me chamavam de falso, de não-confiável. Isso, longe de mexer com a minha auto-estima, acabou por liberar-me para o mundo da irresponsabilidade discursiva. Como um vampiro, passei a alimentar-me de novos crédulos, reiniciando o processo. Tudo isso me foi densamente útil ao longo da minha vida, em especial quando urdi e assassinei Juan Peres Almado. Detalhista, praticamente nada deixei de provas, a quando a Delegacia de Homicídios (DH) de Viña del Mar começou a caçar o matador do jovem e promissor mestre universitário, novamente o senso de escapismo me salvou.

Em uma noite particularmente quente, entrei em um bar, mais um pub, para ser exato, e comecei a beber. Quando o álcool atingiu o limiar a partir do qual poderia me comprometer seriamente, apanhei meu automóvel e acelerei até a DH, tendo o cuidado de travar bruscamente em frente a delegacia, de modo a que os presentes escutassem que os pneus travavam violentamente sob o asfalto, com o som característico de uma brecada. Entrei no prédio e anunciei que era o responsável pelo assassinato, tendo o cuidado – como é boa a prática apurada de falsear a verdade! – de plantar, em meu depoimento algumas sutis incongruências. Fui preso na hora.

No dia seguinte meu nome explodiu no noticiário local e, em minutos, no nacional: o assassino havia confessado o crime! Carlito de Los Santos, arquiteto de renome, quarenta e oito anos, ou seja, eu, havia procurado a DH local para confessar o assassinato de Juan Peres Almado, por motivos torpes – ciúmes homossexuais – e com o uso de crueldade – a vítima tinha sido torturada, antes da execução – o que, convenhamos, venderia um bom número de edições. Evidentemente a imprensa queria entrevistar o assassino e também, mais óbvio ainda que eu cobrei pelo incomodo, sendo o dinheiro depositado em minha conta corrente, além dos dez por cento reservados ao advogado, que, por seu turno, conseguiu algumas reportagens adicionais, que igualmente foram capitalizadas.

O caso, sem dúvida, era palpitante e tinha todos os ingredientes para virar o assunto do dia, do mes, dos meses que se seguiram. Após a DH, a televisão e as rádios ouvirem todos os possíveis envolvidos, quatro meses após eu fui liberado, porque as investigações esbarravam em suas incongruências. Eu deixei então de ser o suspeito número um. Solto, passei a argumentar no sentido da minha inocência, manipulando a situação e induzindo a opinião pública a entender que eu tinha sofrido uma injustiça; que na verdade a minha confissão advinha de questões psicológicas não resolvidas, conforme tratamento que havia começado, de modo conveniente, um ano antes do meu pequeno pecado homicida.

De bom profissional, passei a ser considerado pela mídia como um excelente arquiteto. Nada que a mídia não promova, desde que entendamos que devemos agir de modo inteligente de modo a ressaltarmos nossas virtudes de modo sutil, enganoso, como eu era expert em fazer. A imagem de contumaz mentiroso foi devidamente apagada graças a atuação midiática. Meu escritório de arquitetura teve um considerável acréscimo de contratos a aumentou sua produção em quase sessenta por cento e, embora tivesse que contratar terceiros, aumentando os custos de produção, as margens de lucro eram cada vez maiores. Quatro anos após o assassinato inaugurei duas filiais: uma em Buenos Aires e outra em São Paulo.

Há, contudo, um delegado em Viña del Mar que insiste em buscar provas da minha culpa. Para ele sou um psicótico, um frio assassino que deveria nunca ter saído da prisão, que deveria estar encarcerado, preso. Tolices de policial inconformado com a própria mediocridade, envolto em suas rotinas burocráticas. Enquanto eu circulo, midiático e com sucesso, ele enfrenta seu dia-a-dia de modo deprimente. Contudo, eu sei que mais cedo ou mais tarde ele tentará me enfrentar, com suas provas já esquálidas, seus escritos e conclusões, seus estudos de direito penal e seus amiguinhos da polícia. Talvez, nesse dia, eu tenha de retomar as artes da dissimulação e me obrigue novamente a manipular e minar totalmente a sua credibilidade, até que o perigo passe definitivamente,

Mas você não acredita nisso, não é?

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