Confissão

 

Quis ativar em mim o gosto pelo meu passado, por tudo que me havia sucedido até chegar aqui, nesse momento, e poder te dizer o que se passou comigo, mas não de um jeito fugaz, nunca um “oi” desses descosturados pelo tempo, desses que dizemos e na verdade soam como um “estou indo embora”; não, que dessas saudações já ando farto, não as suporto mais.  Contrariamente, queria te dizer o que fui para que entendesses o que sou, e talvez pudesses entender melhor os desvãos dos meus pensamentos, mais ainda um pouco das minhas inarredáveis promessas, bem mais sobre o que estendo em direção ao teu amor. Queria tanto te dizer o que fui e, no entanto, agora que estou aqui, olhando teus olhos, pouco mais do que calar é o que faço. Retraio-me frente a ti como um órfão, como uma estrela sem poesia, como um mar parado na imensidão da calmaria. Perco-me tanto de ti quanto me perco em ti, me perco de ti tanto quanto me perco de mim. Estou aqui, mas nada posso fazer mais do que simplesmente balbuciar. Sinto uma dor imensa ao pensar nos meus próprios esquecimentos, e só não sou leve porque teu olhar me centra à terra, me traz de volta de meus pensamentos para tua companhia.

Um pouco só, abraçando a solidão é o modo como me vejo ao aproximar-me de ti, porque tu és o meu todo, e nada que possas dizer poderá te remover de dentro do meu coração. Mesmo as tuas ausências e o que possam causar-me de desconforto não são capazes de te arrancar de mim, e talvez por isso tenha tanto de te dizer o que em minha alma ocorreu quando, bem antes de te conhecer, já te buscava. Tenho necessidade de dizer-te o que os anos de angústia me roubaram, o que os anos de tristeza me marcaram para que possas por em mim o bálsamo dos teus olhos. Quero te contar de mim, pois me necessito ver em ti, quero criar um avatar de mim para mergulhar em teus olhos, quero libertar-me de vez dos pesadelos que me tornaram o que sou, para renascer em teu olhar.

O tempo, contudo, conspira contra mim, e sei que, pouco mais, pouco menos, irás partir não apenas daqui, mas de mim, e a tua lembrança não será necessariamente forte para me fazer escrever, de modo mais atento, o sentimento e o sentido com os quais moldasses meus desejos. Preciso pois, falar-te agora, e mesmo que não me possas escutar, mesmo que te ausentes, continuarei dizendo para mim mesmo o que tua falta me traz. Enfim, a qualquer momento, talvez por um motivo ínfimo, restarei cansado e cairei novamente no vazio em que me tornei em consequência da intensa dor que me traz a falta dos olhos teus.

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