Lembrar o amanhã

Lembrar o amanhã é saber que hoje (já) é a consequência de ontem e que os amanhãs somente serão realmente novos dias na medida em que não nos permitirmos afundar nos compromissos, horários certos e outras obrigações, além dos processos produtivos, pelo menos não o nosso espírito.

É buscarmos, de um modo ou de outro, mais satisfações e menos estresses. Lembrar o amanhã é saber que hoje, daqui a pouco será o passado e que o momento em que digito esse texto já se diluiu entre os móveis, as paredes, as ruas e as ventanias.

Recordações de hoje e projetos nos levarão até amanhã; somos inexoráveis conosco mesmos. Cada um de nós tem a sua própria noção do de um tempo-dimensão, que é o da nossa estrutura biológica, e, assim como cada um de nós vê algo de modo distinto da forma como outro o vê, ocorre tanto assim com os nossos espaços, com os nossos sentimentos.

Nossos sentidos igualmente determinam o que observamos, pois observar não implica necessariamente em passividade, como os físicos quanticos já nos informaram, mas sim em possibilidades. Na medida em que interferimos sobre o que vemos e o que vemos interfere sobre nós, não somos nem deuses nem instrumentos, mas máquinas desejantes, conforme Deleuze. Frustrações incorporadas, seres neuróticos em busca de novos referentes que sejam plenos de culpas e de redundâncias. Somos o que nos construímos, dentro das opções possíveis, mas, mesmo sem elas, continuamos a nos construir.

Somos seres que aprendem, porque os seres vivos aprendem, não poderia ser diferente. Lembrar as frustrações é prorrogarmos seus efeitos, para que possamos criar uma nova consciência comportamental, a partir do que já conhecemos, ou restarmos em nossas zonas de conforto. Nos construindo no cotidiano, o tempo cronológico se esvai mas isso, de certo modo, não importa. Talvez seja mais significativo o cultivo da vaidade, estar up to date quando necessário.

De qualquer modo, talvez seja interessante lembrar o amanhã, no mínimo para não esquecermos de nós mesmos e de que, queiramos ou não, não somos meramente as lajes de um calçadão.

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