Morte no engarrafamento

 

Atropelamento por Brazil Press - Welcome.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/brazilpress/3752784322/

Junho de 2009.

Ontem à noite, retornando da escola, por volta das 22h40, eu de carona, notamos um engarrafamento que normalmente àquela hora não acontece. Noite fria, meio de semana, retornando do trabalho com cansaço acumulado e, sem mais nem menos, tudo parado, o trânsito sem fluxo. “Só pode ser a BM fazendo blitz” – comentamos. Mais comentários casuais. BM é a sigla da Brigada Militar e em uma blitz param-se veículos, para verificar documentos, pessoas ou ambos. Erramos. Adiante, uma mulher já madura jazia morta, no lado oposto da via. Vestia um blusão pesado e uma calça comprida, cor escura. Há duas semanas um jovem igualmente morto, vitimado em mais um dos infindáveis acidentes envolvendo motos, também se encontrava jogado na pista, desta vez no início da noite, por volta das 18h15, no momento em que eu me dirigia à escola.

Nos dois casos os cadáveres estavam sós, ninguém os pranteava e, muito provável, até pouco tempo eram pessoas dotadas de capacidades, de sonhos, de famílias e dos inevitáveis compromissos do dia-a-dia. Talvez tivessem filhos, talvez não, mas agora estavam ali, no meio da via pública, como se fossem res – coisas abandonadas o que, naquelas circunstâncias, de certo modo, eram. Passamos pela mulher, pelo corpo da mulher da qual não sabíamos o nome e absolutamente nada. O automóvel voltou a deslizar pela avenida. A curiosidade se esgota rápido, flui como água e parece que todos nos habituamos, desde muito com a banalização da morte, com a rotina onde sequer esse evento necessita de uma justificativa, a não de algo como um comentário breve, um muxoxo, um piscar de olhos, um menear de cabeça e só.

Vivemos em um tempo em que poucas coisas são capazes de nos mobilizar, de nos fazer sair da apatia e da indiferença, ressaltada alguma injustiça sofrida ou a catalizadora indignação. Corpos mortos em acidentes não mais nos comovem, e não paramos um segundo para refletir sobre o fato. A morte é não muito mais do que um mero dado estatístico, pouco importando se ela se deu graças a uma doença, a um assassinato, a um suicídio. Olhamos corpos reais com a mesma naturalidade e indiferença que observamos corpos virtuais na web, na televisão, nos jornais ou em qualquer outra mídia. É muito mais provável que lamentemos sincera e profundamente a morte de um cão ou de um gato do que a morte de uma ou mais pessoas, simplesmente porque criamos laços afetivos com os animais, mas somos individualistas a ponto de não nos importarmos – e especialmente de não nos vermos refletidos e em interação com o outro.

Nos sentimos e agimos como peças de engrenagens, a tal ponto que não temos e não nos concedemos tempo para pensarmos no  que realmente importa, a não ser em nós mesmos, em nossa produtividade, em nossos desejos materiais, em nossas solidões, em procurarmos saber se temos ou não dinheiro para pagar o aluguel ou o financiamento, a troca de carro, o cartão de crédito, além de, claro, nos envolvermos no acúmulo precário de bens que, por sua vez são ainda mais inflados de uma futura e previsível obsolescência. Na condição de peças, de coisas massificadas, o uommo machina assim vê o outro, especialmente quem não conhece, pelo que naturaliza-se a indiferença na mesma proporção em que esquece-se a solidariedade.

Das lições, nada aprendemos. Parecemos necessitar de uma catarse coletiva, de um crime bárbaro e do incentivo midiático para promovermos nossos sentidos e sentimentos. Somos edulcorados, acríticos e, especialmente, egoístas em relação aos outros. A continuar assim nos transformaremos, da forma mais rápida possível em seres kafkanianos, insetos sociais dentro de comunidades de interesses mercantis onde, ao invés de feronômio, andaremos tontos, iluminados da clara cegueira de que nos noticia Saramago, tateando em busca – talvez – de nossas combalidas humanidades e de alguns valores fundamentais que devemos ter jogado em alguma gaveta ao longo das nossas histórias.

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