Não posso me afastar de mim

Não posso me afastar de mim; de ti eu posso. Fingir, negacear, aborrecer, amar, esquecer, tudo isso e muito mais em relação a ti eu posso. Ao me ver no espelho, observo algo diferente do que vi ontem; nada mudou, há décadas, em como me comporto; quanto minto para terceiros, isso de certo modo me diverte e muito. Secretamente rio das suas ingenuidades, mas não possuo mais a arte de enganar a mim mesmo. Assim, tornei-me prisioneiro das expetativas que cultivei, das ilusões e dos vazios que permiti, indolente, que me acompanhassem. Dia-a-aia, gota a gota, vou nutrindo uma certa indolência com a vida, com o que virá por aí; há uma dose de auto-suficiência em tudo isso, um certo travo de melancolia.

Na medida em que te enlaço em minhas possibilidades, mais te seduzo e te ataranto; na posição de presa não me és mais tão atraente. O gozo do corpo, tão pleno de delícias, também tem seus melhores momentos e suas antecipações. Se o amor não for irrigado, a planta fenecerá e passará a ser, na melhor das hipóteses uma doce lembrança e na pior uma sombra solitária a me enervar, a me mostrar sempre como podia ser melhor. Se é verdade que tanto me queres, me observa melhor, para entenderes o que escondo de mim mesmo, com o que tento ocultar, com a pálida tristeza que, de tanto em tanto me torna assim tão ensimesmado. Somente assim, a partir do que efetivamente conheces, tu te tornarias verdadeira igualmente em meus afetos e em meus desejos.

Uma leitura real, não um trecho de virtualidades, é o que busco em ti. Essa profunda lealdade, que somente se compartilha com nossos medos, é que me faria ficar tão próximo a ti, que me tornaria realmente uma pessoa não em vias da paixão, mas do amor. Amar por vezes é estimulante, mas por certo extenua, cria obrigações, faz de um paraíso algo bastante inferior. De qualquer modo, penso que é tudo uma entrega, um pouco de um travo de vinho, talvez mesmo um pouco de fingimento.

Somente assim, quando a minha sombra se confundir com a sua, e eu não mais puder distinguir em mim algo distinto do que tu és, nos possuiremos. Até lá nosso amor cabe todinho em algum programa fugidio, em um final de semana, em uma tarde plena de verão, na qual saboreamos tão-só o que ali pudermos, e pouco mais do que isso será lembrança, memória, boa-vontade. Esquece meu corpo, sorve meus olhos. Eles nos dirão o que, efetivamente, poderemos ser.   HILTON BESNOS

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