A velha assertiva

A velha assertiva de que “para alguém ganhar, outro tem que perder”, revela-se particularmente cruel, em razão da exclusão da cidadania, gerada no âmago de um quadro institucionalizado de injustiça social. No Brasil, hoje, em razão de crises de diversas ordens e do abuso de uma significativa parcela feudal instalada na classe política, há um entre-devorar em busca do alcance de necessidades imprescindíveis à estabilidade individual e familiar, o que, em suma, faz avultar patologias e distorções sociais que se retroalimentam e cuja solução se circunscreve a uma efetiva fiscalização do cidadão sobre as instituições políticas, econômicas e financeiras das quais é súdito.

Aqui, o projeto neoliberal é porta-voz da globalização. De todo, vasta bibliografia sobre o tema, nos permite visualizar a origem, as tendências ideológicas e as conseqüências de tal fenômeno. Ora, o que tem isso a ver com a escola, e como pode atingir, por exemplo um aluno no interior do Ceará, do Maranhão ou do Rio Grande do Sul? O que o professor  do interior de Goiás tem a ver com tais processos, que por vezes parecem tão distantes e afastados de sua realidade? Usando-se o próprio conceito de globalização a malha de interesses que se estende de Nova Iorque a Brasília, de Hong Kong a Berlim, de Osaka a Miami, igualmente atinge a professora de Tocantins, bem como o aluno de Campinas. Como isso acontece, e quais são as suas conseqüências reais?

Os influxos econômicos e financeiros gestados dentro de uma política nacional globalizada atingem o projeto educacional por inteiro. Exigências do capital trazem conseqüências diretas a política educacional, e não poderia ser diferente. Os salários dos professores, a expansão, conservação ou manutenção das salas de aula, números de alunos matriculados, a capacidade da rede pública em atender tais demandas, tudo está interligado dentro de um sistema de orçamento público e dentro de uma legislação que regula as atividades desenvolvidas pela escola.

Os ingressos de receita nos diferentes níveis de competência constitucional da administração pública (federal, estadual, municipal) bem como sua capacidade de endividamento, moldarão a política educacional como um todo, do qual a professora de Palmas, ou o professor catedrático da USP terão de se haver.  A falta de recursos para atendimento às suas demandas, das mais diversas ordens, tem origem, sim, não raras vezes, em Londres, Nova Iorque, Washington,  Osaka, em Cingapura, e outros locais  alhures. A partir do momento em que a economia globalizada tem a capacidade de volatizar capital, atendendo interesses meramente especulativos, e o feudalismo legislativo comporta-se como porta voz de tais necessidades, seus efeitos atingem todas as instituições, idem sistema escolar, independentemente de suas necessidades, premências ou características setorizadas. Submeter-se a globalização implica submeter políticas nacionais estratégicas.

A escola pública tem seu papel regulado pela administração que a gerou, inconteste sua  verticalização hierarquizada e sua submissão ao poder político que dá-lhe sustentação, além do que seus agentes educacionais encontram-se adstritos a estatuto funcional na maioria dos casos, afora algumas distorções do sistema.  Logo, a mantenedora pública regerá a gestão de suas mantenidas, dentro de seus peculiares interesses e disponibilidade orçamentária, dispondo dos recursos humanos e materiais destinados à escola, balizará sua praxis pedagógica e dará cor a seu projeto educacional.  As tensões havidas no âmbito escolar derivam-se desde posições ideológicas,  movimentos associativos ou de caráter sindical,  diferentes visões pedagógicas, pressões comunitárias e sociais, interesses políticos (ou meramente eleitorais), qualificação do ensino e dos professores egressos de instituição de instituição de nível superior, falta de capacitação necessária para implementar tal projeto educacional, problemas relacionados à estrutura da escola, enquanto instituição inserida no âmbito social, situações de caráter material e ético, violência, predação de escolas, ameaças a alunos e professores, questões que envolvem avaliação, promoção, reprovação, índices de alunos evadidos, preponderância conteudista ou não,  democratização da escola, sendo essas apenas algumas das complexidades com que a escola, pública se depara no seu dia-a-dia.

 A educação comporta análise e visão multidisciplinares, pois seu caráter sócio-cultural predispõe a abordagens que se autocomplementam, o que, contudo está longe de ser entendido como consenso, pois as necessidades educacionais variam assim como as próprias sociedades movimentam-se de modo fluído e complexo. “Esta ruptura entre o mundo instrumental e o mundo simbólico, entre a técnica e os valores, atravessa toda a nossa experiência, da vida individual à situação mundial. Somos ao mesmo tempo daqui e de toda parte, isto é, de lugar algum. Enfraqueceram-se os laços que a sociedade local ou nacional estabelecia através das instituições, da língua e da educação, entre nossa memória e nossa participação impessoal na sociedade de produção, deixando que nós administremos, sem dedicação e sem garantia, duas ordens separadas de experiência”. (Alain Touraine, in Poderemos Viver Juntos, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1999).

A complexidade animada pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos e alimentada pelos mass mídia, pela indústria do espetáculo, pelo azeitamento e pela criação constante de necessidades artificiais via publicidade e propaganda atravessam as diversas sociedades e instâncias, impondo um modus vivendi fundado no egocentrismo e no consumo alienante, em clara oposição à autonomia e ao ser.

1984, de Orwell cada vez mais é um ícone de um processo mundial de aculturação.Ali o mesmo criou a novilíngua, cujos signos e significações tendiam a sincretismos semânticos que reduziam o espaço para o simbólico, a abstração e o interpretativo; a mesma emprestou um brilho todo singular à ficção, que abordava o absolutismo dogmático e centralizador do Estado.  Ora, o uso da fala e do signo são uma das mais eficazes formas com que conta o homem para sua autonomia, além de possibilitar-lhe interpretar o mundo e melhor decidir a partir de tais experiências. Reduzir ou minimizar tais possibilidades é interferir negativamente na capacidade de produção intelectual e abstrata do homem, o que implica na sua maior alienação.

“Na literatura, é belo (e triste) o exemplo que Graciliano Ramos nos dá com Fabiano, protagonista de Vidas secas. A pobreza de vocabulário da personagem prejudica a tomada de consciência da exploração a que é submetida, e a intuição que tem da situação não é suficiente para ajudá-la a reagir de outro modo”. (Maria Lucia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins, in Filosofando, Ed. Moderna, São Paulo, 1993 ). Dentro de um cenário regido por signos técnicos e interesses construídos sob subterfúgios não há mais nichos que abriguem paradigmas que não possam ser extintos alterados ou cooptados por essas mesmas presentes e invisíveis instâncias de dominação ideológica e econômica.

Os mercados de trabalho exigem cada vez mais que o profissional tenha capacidade de interação, de diálogo e que mantenha sua criticidade inclusive cultural e artística, dentro de uma expectativa mundial que privilegia as atividades terceirizadas e de serviços em contraponto àquelas industriais, especialmente nos países desenvolvidos. As lógicas de mercado querem mais o inglês comercial do que as línguas nacionais; mais a criatividade do que o burocratismo alienante e privilegiam as habilidades de negociação e de juízo em contrapartida ao taylorismo sufocante que caracterizou o processo industrial. Não estamos aqui dizendo que as rotinas massificantes e a impessoalidade tenham deixado de existir ou que as administrações voltadas para a produção tenham uma visão mais holística da realidade. O que ocorre é uma expansão dos serviços em relação às atividades industriais, o que requer um profissional com maior capacidade de adaptação e criatividade.

A criação de novas tecnologias trouxe consigo a necessidade dos grandes conglomerados econômicos terceirizarem seus serviços, ocasionando a capilarização de atividades específicas via parcelização ou terceirização, criando assim novas profissões.  Por outro lado, o terceiro setor emerge em vários países como grande arregimentador de força de trabalho solidário.

“Em 1870 … de 13 milhões de empregados nos Estados Unidos só três milhões dedicavam-se à produção de serviços; em 1940, dos 50 milhões de empregados mais de 24 milhões já trabalhavam nesse setor.”

“A General Electric, por exemplo, em 1980 tinha 85% do seu faturamento em atividades nitidamente industriais e 15% em atividades terciárias. Em 1997, praticamente invertera-se a proporção, com 75% de seu faturamento proveniente das atividades de serviços: basta pensar que a GE opera com satélites, cartões de crédito, companhias de leasing, transportes marítimos e aéreos em todos os cinco continentes, Só no setor de seguros possui 28 empresas.” (Domenico de Masi in O Futuro do Trabalho, Editora UNB e José Olímpio, Rio de Janeiro e Brasília, 1999)

A expansão e retração dos mercados nacionais e o consumo alienante aliado a instituições pressionadas por demandas sociais que não conseguem atender trazem um sentimento de instabilidade aos indivíduos que se isolam em seus casulos ou mergulham no mundo globalizado, perdendo sua identidade. Inserida nesse cenário de alternâncias bruscas, contínuas e complexas, encontramos a educação formalizada pela escola e para a qual, sem dúvida, chegam também os processos de ruptura e de quebra de paradigmas.

Aqui é necessário um breve corte histórico objetivando ter clara a idéia da cultura escolástica imposta pelo colonizador português à novas terras. A mesma privilegiava o texto, afastando-se do empirismo científico. O humanismo e o renascimento europeus tomaram um viés diferenciado em Portugal, especialmente a partir de 1550, com a ascenção do protestantismo e dentro do espírito da Contra-Reforma pós Concílio de Trento. O fortalecimento da Companhia de Jesus e o declínio do humanismo em Portugal privilegiaram a leitura e o fazer pedagógico imbricado nos clássicos greco-romanos.

“Por ciência escolástica, entendemos aqui a escolástica dos séculos XV e XVI, com o seu distanciamento e quase esquecimento dos métodos e conquistas da filosofia natural do período anterior. E por ciência humanística queremos significar a de um humanismo que, à força de se preocupar com as letras, desdenhava prática e, por vezes, teoricamente as ciências enquanto conteúdos de saber. Ao voltar-se para a medicina e para a filosofia natural, esse humanismo interessou-se sobretudo pelos textos, pretendendo superar com eles na mão a corrente arábico-escolástica, mas descurando de fato o exame das coisas.”

 Basta então uma releitura da influência da Companhia de Jesus nos primórdios da escola brasileira e de seu viés ideológico para termos um retrato bastante razoável do desenvolvimento da educação formal e da tendência ao tradicional que permeia uma enorme parcela das práticas pedagógicas que ocorrem ainda hoje. Tal influência ideológica enraizou-se fortemente na escola nacional; em outros termos, é grandemente responsável pela formação profissional dos professores e nas suas visões de mundo.

Cada vez mais a sociedade cobra soluções da escola brasileira; uma das idéias semeadas e incentivadas muitas vezes cinicamente pelos sistemas públicos de educação é a de que as escolas devem “dar conta” das demandas que lhe são encaminhadas, sem que haja uma contrapartida estrutural que garanta a própria eficácia do sistema. Hoje as escolas, especialmente as públicas, lidam com violência física e verbal,  ameaças,  alunos drogados,  famílias desestruturadas, adolescentes desrespeitosos, criticidade exacerbada contra  a autoridade; alunos que são vítimas de molestamento sexual,  alunas adolescentes grávidas que vão engrossar as fichas de FICAIS, e assim por diante.

 Administrativamente lidam com a falta dos professores, com a improvisação desestruturante das mantenedoras, com uma falta de política de integração entre os órgãos públicos no sentido de uma cooperação efetiva para superar problemas que demandam saúde física e mental, lidam com encaminhamentos sem retorno, lidam com um alto nível de estresse e de corrosão da própria estrutura da escola. Ora, inexiste formação profissional que possa abarcar toda essa demanda. Somente uma rede multidisciplinar profissional extremamente bem azeitada poderia minorar tais problemas.

Alguns fatores observados na prática:

 (a)      os professores e as escolas são um dos raros espaços públicos onde a agressão e a violência são cotidianamente suportadas como se isso integrasse o código de relações estabelecidas e sem pauta de discussões com a sociedade;

(b)     as mantenedoras públicas tem suas responsabilidades minoradas, a partir do momento em que se discute unicamente os efeitos da violência escolar mas não se discute o papel das mesmas no sentido de prevenir a violência institucionalizada com políticas públicas integradoras e multidisciplinares;

(c)      o mito romântico linkado a figura do professor ainda subjaz ao seu papel de profissional da educação fazendo com que não raras vezes, a sociedade admita que aquele cumpra a função de substituição psicológica aos papéis reservados aos pais, às famílias, às comunidades, aos serviços sociais, etc.

(d)     a visão utilitarista do conhecimento, o que faz com que o sujeito epistêmico tão-só importe-se realmente com o produto final do ensino, representado por um diploma, não raras vezes carente de valência real.

A educação comporta análise e visão multidisciplinares, pois seu caráter sócio-cultural predispõe a abordagens que se autocomplementam, o que, contudo está longe de ser entendido como consenso ou homogeneização, pois as necessidades educacionais variam assim como as próprias sociedades movimentam-se de modo fluído e complexo.

“Esta ruptura entre o mundo instrumental e o mundo simbólico, entre a técnica e os valores, atravessa toda a nossa experiência, da vida individual à situação mundial. Somos ao mesmo tempo daqui e de toda parte, isto é, de lugar algum. Enfraqueceram-se os laços que a sociedade local ou nacional estabelecia através das instituições, da língua e da educação, entre nossa memória e nossa participação impessoal na sociedade de produção, deixando que nós administremos, sem dedicação e sem garantia, duas ordens separadas de experiência”. (Alain Touraine, in Poderemos Viver Juntos, Ed. Vozes, Rio de Janeiro, 1999).

A complexidade animada pelos interesses econômicos, políticos e ideológicos e alimentada pelos mass mídia, pela indústria do espetáculo, pelo azeitamento e pela criação constante de necessidades artificiais via publicidade e propaganda atravessam as diversas sociedades e instâncias, impondo um modus vivendi fundado no egocentrismo e no consumo alienante, em clara oposição à autonomia e ao ser.

Dentro de um cenário regido por signos técnicos e interesses construídos sob subterfúgios não há mais nichos que abriguem paradigmas que não possam ser extintos alterados ou cooptados por essas mesmas presentes e invisíveis instâncias de dominação ideológica e econômica. Os mercados de trabalho exigem cada vez mais que o profissional tenha capacidade de interação, de diálogo e que mantenha sua criticidade inclusive cultural e artística, dentro de uma expectativa mundial que privilegia as atividades terceirizadas e de serviços em contraponto àquelas industriais, especialmente nos países desenvolvidos.

As lógicas de mercado querem mais o inglês comercial do que as línguas nacionais; mais a criatividade do que o burocratismo alienante e privilegiam as habilidades de negociação e de juízo em contrapartida ao taylorismo sufocante que caracterizou o processo industrial. Não estamos aqui dizendo que as rotinas massificantes e a impessoalidade tenham deixado de existir ou que as administrações voltadas para a produção tenham uma visão mais holística da realidade. O que ocorre é uma expansão dos serviços em relação às atividades industriais, o que requer um profissional com maior capacidade de adaptação e criatividade.

A criação de novas tecnologias trouxe consigo a necessidade dos grandes conglomerados econômicos terceirizarem seus serviços, ocasionando a capilarização de atividades específicas via parcelização ou terceirização, criando assim novas profissões.  Por outro lado, o terceiro setor emerge em vários países como grande arregimentador de força de trabalho solidário.

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