Linhas da vida

As linhas da vida, representações das histórias pessoais, se entrecruzam infinitamente. Crianças e idosos se comunicam, adolescentes e adultos se falam, mas pouco se reconhecem. De certo modo, adultos, adolescentes, jovens e idosos se referem uns aos outros como classes econômicas e sociais e, de alguma forma, se digladiam nas suas diferentes etapas de existência.

Crianças não; só lhes interessa brincar e em sua inocência são plantadas sementes do futuro, estruturadas suas personalidades e visões do mundo, com a referência do que vêem e do que lhes é passado pelo mundo dos adultos, dos irmãos e da comunidade onde se inserem; o amanhã lhes pertence, embora caiba aos demais preservar-lhes as possibilidades reais de serem felizes.

As linhas descendentes e ascendentes tem um certo valor econômico e social, mas melhor é a linha da adultez e mesmo da maturidade. O mercado produtivo, contudo, quer aproveitar a força da juventude e, não raro, elege a sua inexperiência como um elemento a mais a ser aposto na força centrípeta do trabalho. Como tentativa de mimetismo, o trabalho busca integrar-se na vida pessoal de seus empregados, como se fosse parte delas; não se iludam esses pois tal relação é mero contrato, que se desfaz quando o interesse dos subalternos busca a mesma relevância de quem lhe paga a força de trabalho. No dizer dos americanos, pais da administração, da eficiência, dos capitães da indústria e criadores dos mass mídia, enjoy it.

À adultez já avançada acorrem os eufemismos da língua: terceira idade, melhor idade, idade da liberdade dos encargos dos filhos, do trabalho e das benesses da aposentadoria. À essa fase cabe antes o exercício da renúncia e a busca da sabedoria do que a auto-piedade. Fase em que, na maior parte das vezes, a força do plantio já se esvaiu e é chegada, sem dúvida, a hora da colheira. O tempo flui, as oportunidades não mais retornam, as escolhas passadas adquirem a solenidade do que não mais é flexível. O idoso é quem se transmutou, que é hoje o que seu futuro criou ontem. Se for sábio, saberá reconhecer em seu próprio o corpo da criança, do jovem, do adulto que ali habitaram e reconhecerá, no Outro o que reconheceu em si próprio. A sabedoria do idoso é a sua passagem para a eternidade através desse mesmo Outro.

A bailarina vai ao banco, o alcoolista veste elegantes trajes, o atleta entrega-se ao sono, e todos são hoje o que, em algum ponto distante arbitraram ser ou não ser. O destino, essa grande e falsa máscara de gesso apenas observa a passagem do tempo, essa dimensão autofágica de todos nós. Nossas idades obedecem aos nossos relógios biológicos, sociais e culturais. Dizer que temos quinze anos ou setenta anos implica em constatarmos que habitamos cenários distintos. O céu estrelado aos quinze não é o mesmo céu estrelado aos sessenta e três. Vamos, em nossas experiências, colhendo trechos do nosso futuro dentro de uma escada helicoidal, cuja tensão é permanente e, não raro, conflitante.

Projetamos o futuro e as suas possibilidades com base no que aprendemos até hoje e com respeito aos nossos limites, que já conhecemos de há muito. Contudo, como um movimento gestáltico, somos mais do que aprendemos. Nossa idade é uma soma, mas nossas experiências, realizações, lutos, sentidos, sentimentos e construções identitárias são exponenciais. Somos seres quel realizam a autopoiese de modo constante e trocamos com a Mãe Terra nossas abnegações e nossas idiossincrasias. Nossas idades apenas são registros fáticos, enquanto nos apomos em frente ao desconhecido, ao devir que, de certo modo, planejamos mesmo que de modo inconsciente.

No entrecruzar com o Outro reforçamos nossas identidades e nos dispomos ante nossas ancestrais dúvidas: criamos o destino ou ele existe, criamos Deus ou por Ele fomos criados, criamos o desespero da Morte ou, em verdade ela é simplesmente uma passagem para um mundo desconhecido, e por isso tanto a tememos? Enquanto não temos capacidade de responder a essas questões (e de certo modo é muito interessante que não as possamos responder) vivemos, de modo classificatório e de acordo com nossas expectativas.

Transitamos entre o divino e o miserável de alma, e talvez nossos instintos não sejam assim tão refinados quanto deveriam. Somos cães, mas só mordemos quando assim desejamos. Inclusive e especialmente a nós mesmos. A idade avança e nos impulsiona, assim como o tempo. Se à primeira ocorrem características humanas que podemos qualificar, quantificar, classificar, mapear desejos e fazer até previsões; se à mesma podemos conhecer antecipadamente comportamentos, características físicas e biológicas, modos de pensar e padrões ideológicos, ao tempo resta a poesia e a infinitude da dimensão, do infinito.

Nossas idades não são boas ou ruins. Apenas são. E as nossas esperanças são as de que possamos vivê-las em sua integralidade, da maneira melhor possível. Somente nossas opções nos guiam. Inclusive a de pensarmos e agirmos em relação ao nosso futuro, que estamos estruturando desde ontem.

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