Possíveis nômades

Tuaregue

Vivemos em trânsito; a impressão é a de que, na maior parte do tempo, estamos indo para, o que quer que isso signifique. Mais: como em um pêndulo, esse ir e vir, esse sair e chegar em nossos cotidianos tem seu trajeto e amplitude mapeado, previsível, rotinizado, engessado por uma agenda na qual, aparentemente sempre há lugar para mais uma obrigação. Quando Bauman, em Globalização: as conseqüências humanas (Jorge Zahar Ed.) se refere aos locais e aos deslocalizados, faz considerações perspicazes e pertinentes. São locais os que, em razão especialmente de seus interesses e de questões de empregabilidade se constituem identitariamente em uma determinada região e cenário, encontrando ali seus vínculos sociais e comunitários.

Os deslocalizados, em função do acúmulo de capital e aos bens culturais e sociais têm a possibilidade real de globalizar o seu deslocamento, transitando livremente pelo planeta. Bauman cita o exemplo das empresas transnacionais, que tem interesses em diversos pontos da Terra e que, na maior parte dos casos, não se comprometem en relação aos cenários locais. Se predam economias regionais, a tarefa sempre árdua de reconstruí-la será invariavelmente dos locais. Para Bauman, as questões de trânsito dos deslocalizados atendem a interesses econômicos e estratégias de mercado, estabelecendo uma rede cuja centralidade é o capital.

Tal centralidade, muitas vezes não explicitada, pode ainda ser naturalizada de modo artificial e muitas vezes ardiloso, como se a predação econômica e o esgotamento de recursos locais fossem algo intrínseco à tal exploração. Para tal processo artificioso concorrem topos de linguagem ideologizada e normalizadas, como as expressões liberdade, conjuntura dos mercados, capacidade de empregabilidade dos trabalhadores locais e conceitos como os de liberalidade tributária, relação custo-benefício, progresso, além, é claro, do real aporte financeiro a ser obtido da população, por meio de um sistema político e econômico de pressões e contrapressões nos quais se insere o poder público local que poderá eventualmente vir a conceder financiamentos estatais com baixa taxa de spread e possíveis isenções fiscais, entre outras benesses.

A acuidade de Bauman nos retira a libertária ideia de que os locais podem livremente dispor de seus tempos e espaços, sem que àqueles ocorra qualquer restrição. É possível mesmo estabelecer uma analogia entre a capacidade real de deslocamento dos mesmos e o movimento cíclico e periódico de um pêndulo simples, que atende ao seu centro de gravidade e oscila na conformidade desse mesmo centro. Os deslocalizados, contudo, tem a liberdade real de mobilidade  sem as amarras supervenientes que acorrem aos locais.

Deste modo, coloca-se em xeque a ideia de nomadismo. Os tuaregues que vivem em nós parecem cada vez mais distantes e os nossos oásis, infelizmente cada vez mais se assemelham a arquétipos, miragens projetadas a partir dos nossos desejos. Somos marcados pela vontade de ir, de explorarmos, o que parece absolutamente facilitado pela intensividade tecnológica que torna nosso mundo admiravelmente complexo; contudo a mesma é um dos instrumentos mais eficazes no sentido de manter ligados  full time os mecanismos estruturais que nos mantêm localizados.

Dentro desse cenário, o fenômeno da emergência e do desenvolvimento de processos bottom up parecem uma alternativa viável e possível (Steve Johnson, Emergência, Jorge Zahar Ed., 2001), especialmente se considerarmos uma dinâmica de rede e da intensa capacidade de comunicação da qual somos partícipes. Talvez assim, pela organização de um sistema difuso mas poderoso em sua simplicidade possamos reavivar os tuaregues que, de modo sutil, continuam a se insinuar em nossos sonhos.

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