Enxames e Bauman

Um dos conceitos que Bauman analisa no livro Vida para Consumo, Zahar Ed. é o de enxame. Enxames não são “equipes, não conhecem a divisão do trabalho. São … agregados de unidades dotadas de autopropulsão, unidas unicamente, … pela ‘solidariedade mecânica’, manifestada na reprodução de padrões de comportamento semelhantes e se movendo numa direção similar”. E segue: ” Os enxames, de maneira distinta dos bgrupos, não conhecem dissidentes nem rebeldes – apenas, por assim dizer, ‘desertores’, ‘incompetentes’ e ‘ovelhas desgarradas’. As unidades que se desviam do corpo principal durante o vôo apenas ‘ficaram para trás’, ‘perderam-se’ ou caíram pelo caminho'”. E finda Bauman: “Num enxame não há intercâmbio, cooperação ou complementaridade – apenas a proximidade física e a direção toscamente coordenado do movimento atual”.

Ora, se ao conceito de enxame acrescentarmos a definição de panóptico – uma central de controle e portanto de poder e de vigilância social onde o observado tem sempre seu comportamento, suas ações e/ou inações contabilizadas e registradas em um bando de dados, que debita desvalias e credita conveniências, poderemos chegar ao entendimento do que eu entendo de desconforto, no mais das vezes profissional.

Pessoalmente sempre priorizei a inteligência interpessoal – embora não seja um descurado técnico – o que é uma forma de arte. Divorciado de um comportamento gestor, embora saiba de suas imensas aplicabilidades, sobretudo práticas, busquei na maior parte das vezes alternativas humanas ao entrar em contacto com terceiros (pessoas físicas e/ou instituições), o que nem sempre devo ter feito com a eficiência ou eficácia desejadas. O direito me ensinou que tratar desiguais como iguais e iguais como desiguais é uma injustiça valorativa, não raro difícil de reparar. No entanto, também aprendi que o amesquinhar-se, o mediocrizar-se pode ser um belo mimetismo que muda ao sabor das pretensões individuais.

Enxames não toleram desgarrados como eu. É claro que isso não é explícito, mas o enxame entende conveniente, desejável que eu me submeta a determinados comportamentos que foram naturalizados em nível de gestão. É adequado, por exemplo, comparecer a um evento após ter lecionado uma tarde toda, e tendo duas horas de descanso, exatamente da maneira que saí da sala de aula, porque o único sentido é cumprir o ritual de fazer número em meio ao enxame. Fica, portanto, desagradável que eu faça diferente e que resolva ir para casa tomar um banho e dirigir-me para o evento. A diferença sutil é que, em assim agindo, eu não permito que a rainha-mãe do enxame me controle exatamente. Como vai poder saber exatamente onde estou, em que lugar fiquei, como mapear alguém fora do enxame? Como poderá, oh rainha-mãe, contabilizar tal gesto?

Ah, sim, tratou-se de um evento internacional de educação, envolvendo centenas e centenas de educadores, portanto muita gente, e, infelizmente, eu não estava abaixo das asas da rainha-mãe. Tsk tsk tsk..

Quando desenvolvemos uma interface com a realidade e não tememos o afastamento do enxame, corremos o risco de sermos, concretamente aquele ser perdido que Bauman analisou. No entanto, a reflexão é:  precisamos estar no burburinho, no bater das asas do enxame? Isso é tão fundamental? É tão importante seguirmos os rituais prescritos, sermos tão adaptáveis até chegarmos ao ponto de não nos reconhecermos? Quando Bauman brilhantemente nos mostra questões sociais de convivência humana como seus conceitos de liquidez, não estará nos impelindo a pensarmos sobre as questões identitárias, ou, falando de outro modo, de como podermos fazer para não sermos nós mesmos, mercadorias?

Diz a sapiência: não basta sermos virtuosos, temos de parecer virtuosos. Em alguma situações, como as que se tratam de ritualizar e de naturalizar conceitos, é mais que necessário parecer virtuoso. Sempre é bom portar a previsibilidade, a acomodação, o achismo, e – jamais esquecer! – dos controles sob a forma de papéis, relatórios, atas e demais cornucópia que deve estar a disposição para os momentos mais cruentos. O papel prova, a palavra não!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s