Normalidades

Não há nada para dizer que já não tenha sido dito. De uma forma ou de outra, já se falou tudo e, portanto, não há dúvidas. Confundimos estrelas com anãs brancas, lazer com laser, olhares com visões. Para nós tudo é absolutamente sinônimo, e talvez por ser assim, por ignorarmos a origem das palavras e por lermos absolutamente pouco, sejamos assim tão lineares, tão mórbidos quanto a sentidos e sentimentos. Nossas confusões provêm, em grande parte, de sermos assim, tão reducionistas. Vivemos e aprendemos a conviver em um mundo semântico tão sem sutilezas, que nos empobrecemos desde o tecer de nossas próprias vidas. Se a palavra pode conduzir a representações estruturantes, tal condução só pode ocorrer através do alargamento de nossos próprios horizontes. Ao amesquinharmos nossas possibilidades, igualmente o fazemos em relação à língua. Ou o contrário. Dizemos muito pouco porque perdemos a capacidade de dizermos mais. Aprendemos pouco porque estamos satisfeitos em um mundo que nos entende tão-só consumidores. Não precisamos mais ter causas, ter histórias, porque a ficção científica do dia-a-dia nos enternece em uma estreita visão virtual. Para nós importa tão-só o conforto que possa ser comprado, negociado, adquirido, alienado, alugado. Vivemos vidas de aluguéis; construímos paisagens tão homogêneas e uniformes, que nos habituamos a esse conforto banalizado, suave, cinzento. Sangramos cor de rosa pink.

Haverá sempre um amante, uma novela, uma partida de futebol, um campeonato, uma tarde de verão, uma cerveja (ou bem mais) e assim por diante para que possamos esquecer o que somos e contratar definitivamente o que não somos. Adoramos tanto nossas máscaras que, um belo dia não nos recordamos mais como era o nosso rosto. Em um belo dia nos damos conta que o tempo devorou as nossas consciências e os nossos ideais, tão caros, passaram a ser apenas recordações ou então são relegados. Crescemos, ficamos adultos e lamentáveis. Nos simplificamos porque assim queremos, porque é mais confortável. Nossas idéias dormem ali, nos sofás deliciosos dos nossos egos. Optamos por ser menos Cortazar, menos Quino, menos Brecht, menos Bauman, menos teatro, menos argentinos, menos nós mesmos. Em seu lugar, plantamos uma nova realidade composta de Barbies, de corpos dourados, de shopping centers, de whiskies. Optamos por mais bossa nova e menos samba. Em meio a tudo isso, nos cercamos de todos os meios possíveis para tentarmos, de vez por todas, substituirmos a vida real, aquela que pulsa, por uma emulação virtual, aquela que nos acolhe. Ainda chegaremos ao dia em que nos abandonaremos por completo ao sossego e à solidão. Talvez nem precisemos de prazeres e mesmo nossas recordações possam ser pulverizadas como um instante meramente ilusório. Para o bem de todos, não estaremos mais aqui. Afinal, a fila anda.

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