Perene e sólido: passado

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Não há o que seja perene, estável e sólido na atualidade. Chega a ser insólito quando alguém diz pretender algo “para o resto da vida”. Vivemos em interrupções e movimentos constantes, e no mais das vezes não nos damos conta disso, porque as rotinas nos engolem. Cada vez menos descobrimos nesgas de tempo para ler, namorar, assistirmos a um filme ou, simplesmente, refletir. Parecemos presos a um processo que nos deglute, nos elimina e nos recicla diariamente, de modo impessoal e sem um rosto definido. Não nos reconhecemos no outro e vivemos em uma situação de descarte permanente, seja dos bens que adquirimos para cunharmos identidades tão vãs quanto uma passagem de estação, seja das relações tíbias que construímos com base em interesses menores.  Nossos umbigos nos guiam, pois fomos miseravelmente induzidos à apatia do pensamento e à ação sem matutarmos, sem elaborarmos razões, sentidos e porquês. Somos lesados a partir das nossas ignorâncias, medos, tristezas e pensamos que a ausência de afeto e de presença física pode ser suprida com consumismo alienante, culpas infundadas e um sentido irracional de urgência.
Confundimos liberdade com escolhas, com conveniências. Liberdade é não precisarmos escolher em um mundo consumista, é nos sabermos conscientes de que podemos até ser excluídos por grupos de interesse, mas exercermos o direito de não optarmos pelo fácil, pelo efêmero, pela conversinha ranzinza e depreciativa que tantas vezes nos envolve, é nos alhearmos um pouco dos sentidos e dos sentimentos mesquinhos, das coisinhas medíocres do dia-a-dia. Liberdade é o não-alinhamento compulsivo, compulsório junto à massa pasteurizada com a qual temos de forçosamente conviver, seja no trabalho, seja em algum movimento político ou religioso. Mais: é perguntarmos ao outro porque ele quer saber algo, é não estarmos na conformidade, mesmo sabendo que estamos criando em nosso entorno um sentido de estranhamento.
Somos considerados estranhos, exógenos quando não seguimos padrões estruturados e dados como normalizados; quando as nossas respostas (e especialmente as nossas perguntas) não são as esperadas e fazemos questão de afirmar por gestos, por palavras e por atitudes que somos inteligentes e dotados de emoção e em razão disso nos negarmos a seguir o caminho que antecipadamente nos traçaram, preferindo conhecer outras estradas. Somos estrangeiros dentro de uma mesma língua quando sabemos mais palavras que a média, quando perguntamos o que a média custa ou não quer responder, ou quando calamos no momento em que a maioria aplaude por mera conveniência. Somos estrangeiros dentro de um comportamento quando terceiros esperam que façamos algo e não o fazemos porque duvidamos intimamente que seja o melhor a fazer. E por fim somos estrangeiros quando nos arriscamos onde a maioria prefere o conforto. Isso não significa que somos livres, mas que refletimos onde os outros não o fazem, ou porque cansaram de pensar ou porque tem interesses menores a zelar com a proficiência de um apóstolo.
O sólido se desmancha no ar, como disse Kundera, mas ainda encontramos por aí muitas construções barrocas e dentro delas imagens de uma época que igualmente se desvanece. O desespero que se segue é enorme, porque o sólido implica em um planejamento em longo prazo, demanda renúncias pessoais, adia os momentos aprazíveis, aguardados muitas vezes por um tempo maior do que seria possível suportar. Em seu lugar surge a insegurança, o imediato, o que não deixa rastros, o que se isola em sua individualidade. Desaparecem os guerreiros porque não há mais lutas, somem os ideólogos porque os pensamentos são vistos como algo informe e incômodo, não há mais perenidade porque o efêmero nos acorda no dia-a-dia, nos fogs dos noticiários e na indiferença blasé em relação a tudo e a todos.
Enquanto isso o homo faber nos persegue, sitia, e emula, erguendo seu panóptico a cercar-nos, a manipular-nos, a dizer a todo o momento que as nossas possíveis inconveniências podem ser punidas, registradas, analisadas, discutidas, resumidas em um livro ata, em uma ocorrência, em uma manifestação de repúdio comandada pela ampulheta e que os nossos sentidos e sentimentos são um nada diante do que se avizinha. As capas da conveniência se abrem e talvez somente aí possamos perscrutar, mesmo que minimamente, os dentes da fera que vai nos morder. Constatamos tristemente que nossos esforços de maior socialização restaram frustrados e que, afinal, amealhamos poucos apoios em relação ao que buscávamos. O sólido se desmancha no ar e a nossa tentativa de buscarmos um pouco de historicidade se perdeu em um tempo pontilhista no qual não há links possíveis ante uma tela que se projeta infinitamente sobre si mesma.
Somos humanos, mas, claro!, alguns são mais humanitários, solidários que outros, se importam mais, pretendem que os relacionamentos possam substituir o temperamento do aço, a psicologia do tijolo, a atenção da hulha. E aí se constata que não adianta dizer ao homo faber: “Olha, escuta, isso tudo não existe mais, você faz parte de um mundo que se esboroa, você é o passado e, deste, o pior, o incompreensivo e o opressor operador de máquina”. Mas isso não adiantará em nada, pois a burguesia da revolução francesa pensava com os mesmos parâmetros que o campesino sem capital da idade média. O homo faber irá se desconstituir na medida em que seus sensores o avisarem de que está em plena marcha a sua obsolescência e somente aí ele desistirá de morder, de plantar seus dentes em nossas gargantas. Talvez essa seja nossa recompensa maior e talvez a única: sabermos que temos consciência do lugar, do espaço e do tempo em que vivemos. Se nosso pensar não nos isenta, pelo menos nossa ignorância não nos embala e põe a dormir. Ser inconveniente, afinal, pode ser muito gratificante.

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