Fases e decisões

Há fases na vida, que nós podemos chamar de momentos, em que parece que tudo fica difícil,em que nós temos o pessimismo como sentimento prevalente. A impressão é que as coisas vão se desarticulando, as palavras tendem a ficar mais duras, as rotinas mais pesadas e as decisões (bem mais) discutíveis. O ponto principal a ser examinado é se entendemos isso como uma fase, uma situação ruim dentro de um contexto maior, dentro de um projeto de vida, ou se isso é definitivo. Tal visão é a que realmente importa, porque é determinante do que faremos daí para frente. Se entendermos que é uma dissociação momentânea, devemos nos esforçar para que ela chegue ao seu final; se contudo a tendência for a da permanência, temos que romper com o que nos atormenta, mesmo que as nossas feridas fiquem expostas e que suas cicatrizes sejam permanentes em nosso corpo e em nosso espírito. Há rompimentos necessários e salutares, o que não diminui a nossa dor e o nosso ressentimento; de qualquer modo, romper implica em refletirmos a respeito de nossos projetos e, sem dúvida, em quanto os mesmos serão modificados ou mesmo inviabilizados. Há um esforço claro no rompimento, uma situação de tensionamento que pode chegar à insuportabilidade.

Para diferenciarmos o que é efêmero do que é definitivo, o que é passageiro do que é permanente, o que é uma crise ou um momento ruim do que é ou se torna inviável, é necessário avaliar não somente os fatos, mas as circunstâncias, as origens do que iremos examinar e que tanto nos afeta.  Há alguns pontos muito importantes. Um deles é o que aprendemos com a nossa trajetória de vida e que servirá de feedback e de alimentadora de nossas avaliações, assim como a nossa capacidade de empatia, de nos colocarmos no lugar do outro, de conseguirmos enxergar as situações não apenas do ponto de vista dos nossos referenciais, mas do outro. Para isso é necessário transigir, constatarmos até que ponto dialogamos conosco e com o outro; muito do nosso auto-conhecimento estará posto em xeque…

Por outro lado, nossa avaliação dependerá também em grande parte dos nossos sentimentos, das nossas percepções, dos nossos sentidos, daquilo em que nos diferenciamos do outro, para o melhor ou para o pior. Também é verdade que a nossa visão de mundo, o mundo cultural que partilhamos e que nos constrói na medida em que o construímos tem influência fundamental sobre nossas decisões. Embora saibamos que somos regidos bem mais pelos nossos sentimentos e menos pela razão, insistimos em buscar alternativas muitas vezes que nos corroem profundamente, pois não é o neocórtex que orienta nossa afetividade e, portanto, que nos mantém felizes (pelo menos a maior parte do tempo). Em suma, a nossa inteligência emocional, o saber lidar com a frustração, com os limites, com o que nos é vedado, com o que socialmente nos orienta (e não raro determina), com os adiamentos dos nossos sonhos e realizações integram parte do que compõe uma grande rede que irá decidir.

Temporário ou permanente, muitas vezes a angústia de decidir e o temor da pressão social nos faz recuar para a nossa amada zona de conforto, de acomodação, de não optarmos por uma situação de conflito; pensamos acomodar tudo enquanto nos anestesiamos. O que temos de resolver e não resolvermos, ficará lá, como uma metafórica dor de dente corroendo nossa alma, anestesiando nosso viver. No entanto, como tudo, é uma opção. Ou, para sermos mais realistas, a falta dela.

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